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Trump e taxa de US$20 mil não inibem imigrantes brasileiros

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A política migratória de tolerância zero do presidente Donald Trump, que vigorou em maio e junho e separou crianças dos pais, não inibiu brasileiros de atravessarem ilegalmente a fronteira americana.

A procura continua a mesma, inclusive por parte de famílias com filhos pequenos, afirma um coiote que há mais de 20 anos leva imigrantes da região de Governador Valadares (MG) para os EUA. O coiote diz cobrar US$ 20 mil dólares de cada emigrante, isso para os que “não dão trabalho”. “Se ele for mais lento, tiver dificuldade de entender as orientações, já sei que vai me dar dor de cabeça, aí cobro US$ 22 mil.” Segundo ele, o dinheiro fica com algum familiar no Brasil e o acerto só é feito na chegada ao outro lado da fronteira. Marcelo, nome fictício, afirma que com o fim da tolerância zero, as famílias com crianças que ele envia para os EUA recorrem a um método conhecido: se entregam à patrulha da fronteira e pedem asilo. Nesse caso, o valor pago ao coiote cai pela metade. “Pais com crianças têm mais chance de entrar. É uma viagem mais fácil”, alega.

Ele admite que há casos de crianças desacompanhadas que se passam por filhas de outro adulto. “Se eu estou com um menor desacompanhado e meu colega [outro coiote] tem um adulto sem filhos, ele paga US$ 2.000 para o menor ir como filho dele.” Segundo Marcelo, a primeira etapa é ir de avião até a Cidade do México. Lá, agentes de imigração cobram US$ 1.000,00 por passageiro para permitir o ingresso. “Temos um contato no aeroporto em todos os turnos. Mandamos as fotos de cada passageiro nosso, dizemos como vão vestidos. Se não fizermos isso, eles voltam”, relata. Os brasileiros vão até uma cidade mexicana na fronteira, de ônibus ou em voos domésticos. Nesse último caso, é preciso pagar propina a um policial no aeroporto, US$ 100 por pessoa.

Como é feita a travessia depende “do preparo físico do passageiro”. Os mais resistentes pagam US$ 5.000 para caminhar 10 km pela mata. Pelo mesmo valor, é possível percorrer, em boias, um rio que leva aos EUA. Também há a opção de pular o muro na própria fronteira. “A gente tem uma pessoa que avisa quando é troca de turno dos guardas. Aí eles usam uma escada de corda, que vai de um lado a outro, atravessam e vão embora. Dá tempo, mas tem que ser uma pessoa que aguenta correr.” Obesos, deficientes, grávidas e idosos têm a alternativa superluxo, como classifica Marcelo: um caminho de dez minutos dentro de um túnel que desemboca em uma fazenda nos EUA. O preço cobrado pelos mexicanos somente por esse trajeto é o dobro. Até um veículo dos correios é usado: “A pessoa vai embaixo dos malotes, quietinha. Atravessou o pedágio, está livre”.

Segundo ele, cerca de 10% dos brasileiros que o contratam são pegos pela polícia. Nesse caso, ele diz que tem uma rede de advogados para tentar soltar a pessoa sob fiança enquanto corre o processo. “[Nos anos] até que termine o julgamento, mesmo que ela seja deportada, ela já juntou o dinheiro que precisava.” Marcelo diz que já entrou 35 vezes nos EUA sem ser pego e morou 12 anos lá. Nas vezes em que foi preso, pensou em desistir de ser coiote, mas voltou à atividade ilegal. “Com o dólar chegando a R$ 4, a tentação é muita. Já trabalhei numa empreiteira pegando pesado e ganhando um salário-mínimo. Não aguentei nem quatro meses”, diz ele, que compra principalmente imóveis com o dinheiro ganho. “Não gosto de aparecer. Tenho minha fazendinha, minha piscininha, mas não tenho carro chamativo”, diz. Para ele, é a mesma tentação que leva tantos cidadãos da região de Governador Valadares a migrarem ilegalmente. Filho de um ferroviário, Marcelo foi para a América do Norte pela primeira vez com 17 anos. Em pouco tempo, conseguiu comprar bens, o que incentivou os vizinhos na cidade de origem a irem. “Recebi várias ‘cantadas’ para levar outras pessoas. Comecei desse jeito.” Ele afirma que leis e práticas mais duras como as de Trump não frearão os migrantes.


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