{"id":34519,"date":"2018-05-31T13:32:48","date_gmt":"2018-05-31T17:32:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=34519"},"modified":"2018-05-31T13:32:48","modified_gmt":"2018-05-31T17:32:48","slug":"cidade-de-newark-capturada-nos-livros-de-roth-e-muito-diferente-da-atualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2018\/05\/31\/cidade-de-newark-capturada-nos-livros-de-roth-e-muito-diferente-da-atualidade\/","title":{"rendered":"Cidade de Newark capturada nos livros de Roth \u00e9 muito diferente da atualidade"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Ele deixou esta cidade, mas ela nunca saiu de dentro dele. \u00c9 um lugar cheio de falhas, mas que ele amava do jeito que amamos aqueles parentes com quem brigamos.&#8221;<\/p>\n<p>Num dia quente desta primavera americana, o advogado Manny Antunes andava pelas ruas de Newark tentando explicar o charme rude do lugar onde Philip Roth nasceu e construiu os pilares de seus romances monumentais. O autor de &#8220;O Complexo de Portnoy&#8221; e &#8220;Pastoral Americana&#8221;, morto dias atr\u00e1s, descreveu em seus livros uma cidade onde judeus como ele se dividiam entre os trabalhadores e donos de pequenos neg\u00f3cios que se amontoavam nos arredores do parque Weequahic, no bairro mais ao sul, e empres\u00e1rios e m\u00e9dicos com casas grandes bem no centro.<\/p>\n<p>Seu sub\u00farbio quase pl\u00e1cido dormia \u00e0 sombra dos arranha-c\u00e9us de Manhattan brilhando como uma miragem do outro lado da &#8220;grande barreira que era o rio Hudson&#8221;. Newark, nas mem\u00f3rias pedregosas e desencantadas de Philip Roth, era um lugar de gente de bem \u00e0 beira do abismo, onde atritos irrefre\u00e1veis abortavam o sonho americano no embri\u00e3o. N\u00e3o poderia ser mais n\u00edtido o contraste. O mesmo trem da inf\u00e2ncia do escritor, que sai do cora\u00e7\u00e3o de New York e desemboca na biblioteca onde ele se refugiava para imaginar seus enredos, desliza entre vag\u00f5es e locomotivas em decomposi\u00e7\u00e3o e galp\u00f5es oxidados, resqu\u00edcios de uma era industrial h\u00e1 muito esquecida. Mas f\u00e3s mais ardorosos do autor, como Antunes, veem mais que um ferro-velho. &#8220;Ele al\u00e7ou nossa cidade ao n\u00edvel do que James Joyce fez com Dublin ou Franz Kafka fez com Praga&#8221;, ele diz. &#8220;Newark \u00e9 outro de seus personagens.&#8221;<\/p>\n<p>E tal qual uma coisa imaginada, a maior cidade de New Jersey permaneceu congelada nos livros de Roth, muito distante daquilo em que se transformou. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, talvez tentando preservar em \u00e2mbar aquela Newark de sua juventude, o escritor tomou dist\u00e2ncia e foi viver entre Manhattan e um povoado rural. O estopim dessas mudan\u00e7as foram as revoltas de 1967. No auge do movimento pelos direitos civis, um caso de viol\u00eancia policial contra um taxista negro provocou um levante popular que deixou um saldo de dezenas de mortos, destruiu o bairro judeu e provocou o \u00eaxodo da classe m\u00e9dia branca. Newark, desde esse epis\u00f3dio traum\u00e1tico tamb\u00e9m retratado pelo escritor em &#8220;Pastoral Americana&#8221;, virou uma cidade de maioria negra e de imigrantes que muitas vezes nem sabem quem foi Roth. Um raro vest\u00edgio daquela Newark de Roth, no entanto, sobrevive no Hobby&#8217;s, o \u00faltimo restaurante judaico do centro, a poucas quadras dali. No hor\u00e1rio do almo\u00e7o, policiais devoram sandu\u00edches de pastrami e uns homens mais velhos resmungam sobre um pr\u00e9dio de 17 andares que est\u00e3o construindo \u00e0 beira do rio, tapando a vista de Manhattan.<\/p>\n<p>Mesmo na escola onde Roth estudou quando adolescente, pano de fundo de uma s\u00e9rie de passagens em &#8220;O Complexo de Portnoy&#8221; e &#8220;Compl\u00f4 Contra a Am\u00e9rica&#8221;, o escritor tamb\u00e9m virou lembran\u00e7a desbotada. Os romances que ele escreveu, no entanto, n\u00e3o s\u00e3o assunto das aulas de literatura do col\u00e9gio. Roth, pouco antes de morrer, at\u00e9 mandou doar algumas c\u00f3pias deles para que formassem um clube do livro. Vizinho da casa onde o autor viveu na inf\u00e2ncia, que nos \u00faltimos dias se tornou destino de peregrina\u00e7\u00e3o de f\u00e3s e jornalistas, Mostafa Mohamed n\u00e3o entendia toda a como\u00e7\u00e3o. &#8220;S\u00f3 sei que ele era um autor famoso com muitos seguidores&#8221;, disse o imigrante eg\u00edpcio. &#8220;Todo mundo vem tirar fotos.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Ele deixou esta cidade, mas ela nunca saiu de dentro dele. \u00c9 um lugar cheio de falhas, mas que ele amava do jeito que amamos aqueles parentes com quem brigamos.&#8221; Num dia quente desta primavera americana, o advogado Manny Antunes andava pelas ruas de Newark tentando explicar o charme rude do lugar onde Philip Roth nasceu e construiu os pilares de seus romances monumentais. 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