{"id":34720,"date":"2018-06-17T17:48:45","date_gmt":"2018-06-17T21:48:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=34720"},"modified":"2018-06-17T17:48:45","modified_gmt":"2018-06-17T21:48:45","slug":"as-polemicas-geladeiras-onde-imigrantes-ficam-presos-na-fronteira-dos-eua-com-o-mexico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2018\/06\/17\/as-polemicas-geladeiras-onde-imigrantes-ficam-presos-na-fronteira-dos-eua-com-o-mexico\/","title":{"rendered":"As pol\u00eamicas &#8216;geladeiras&#8217; onde imigrantes ficam presos na fronteira dos EUA com o M\u00e9xico"},"content":{"rendered":"<p><strong>Grupos s\u00e3o detidos em celas frias e insalubres, segundo relatos de migrantes; governo americano diz que as condi\u00e7\u00f5es dos centros s\u00e3o adequadas.<\/strong><\/p>\n<p>Jenny sentia tanto frio que n\u00e3o conseguia dormir nem se livrar de uma persistente dor de cabe\u00e7a. Horas antes, ela havia molhado sua roupa e os sapatos cruzando, ao lado do filho e de um coiote (atravessador), o rio que separa o M\u00e9xico dos EUA, na reta final de uma jornada migrat\u00f3ria que havia come\u00e7ado em El Salvador. Mas, minutos ap\u00f3s atravessarem o rio, eles foram pegos pela patrulha migrat\u00f3ria e viveram a experi\u00eancia mais traum\u00e1tica da jornada. &#8220;Nos colocaram nas geladeiras&#8221;, conta Jenny, que pediu para n\u00e3o revelarmos seu nome real.<\/p>\n<p>A mulher de 36 anos e seu filho foram levados a uma cela que ela descreve como &#8220;gelada, muito gelada&#8221;, sob a cust\u00f3dia da patrulha de prote\u00e7\u00e3o da fronteira dos EUA (CBP, na sigla em ingl\u00eas). S\u00e3o centros de deten\u00e7\u00e3o de curto prazo pr\u00f3ximos \u00e0 fronteira, onde os detentos n\u00e3o podem permanecer mais de 72 horas, segundo diretrizes do governo americano. Por anos, no entanto, organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos t\u00eam denunciado que os detentos passam dias ou meses ali, sofrendo com temperaturas extremamente frias, sem camas nem servi\u00e7os sanit\u00e1rios adequados.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/Qhl48fN0bl4Qgq2xfmCl6YelUho=\/0x0:1700x1065\/1000x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2018\/m\/T\/KXNBiWS7abEtFB6avogA\/102012172-9564343f-c6c6-4a4a-9eb0-d8e5e568f740.jpg\" \/><\/p>\n<p>O governo americano, por sua vez, afirma que a estadia dos detentos n\u00e3o supera as 72 horas e que as temperaturas s\u00e3o mantidas em &#8220;n\u00edvel razo\u00e1vel e c\u00f4modo tanto para detidos como para funcion\u00e1rios&#8221;, segundo um manual de pr\u00e1ticas enviado pela CBP \u00e0 BBC News Mundo, o servi\u00e7o em espanhol da BBC. O apelido &#8220;geladeira&#8221; \u00e9 usado frequentemente por migrantes latino-americanos que passaram por ali. Mas \u00e9 dif\u00edcil saber exatamente como s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es das celas, uma vez que o acesso ao local \u00e9 restrito a funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>Luz branca<\/strong><\/p>\n<p>Jenny conta que, logo ao chegar ali, &#8220;me tiraram tudo&#8221;: seus documentos pessoais de El Salvador, um brinquedo de seu filho, dinheiro e pe\u00e7as de ouro que portava para o caso de precisar vender para ter mais recursos para a viagem. Ela e o filho passaram quase quatro dias no mesmo ambiente com outras dez mulheres e seus filhos, conta. &#8220;Nos deram algo que parecia papel alum\u00ednio como len\u00e7\u00f3is&#8221;, diz ela. &#8220;Havia colchonetes no piso, fininhos, como um pl\u00e1stico.&#8221; H\u00e1 quem diga que a sensa\u00e7\u00e3o de frio vem do contraste com as altas temperaturas do deserto l\u00e1 fora, ou para atender as demandas dos funcion\u00e1rios dos centros, que precisam usar uniformes e coletes, a despeito do calor. Mas h\u00e1 relatos, negados pela CBP, de que seria uma forma de punir os imigrantes.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/7sxNiu4SGGox12WkySwmBZJ-MBU=\/0x0:1700x1065\/1000x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2018\/Y\/d\/lTMpmqQvK4tAwyX5GIDw\/102012173-642e3e71-5f82-4ff2-aba1-8704da96973e.jpg\" \/><\/p>\n<p>Segundo Jenny, havia tamb\u00e9m sempre uma luz branca acesa na cela. A descri\u00e7\u00e3o coincide com uma feita em 2016 pelo Conselho Americano de Imigra\u00e7\u00e3o (AIC em ingl\u00eas): &#8220;Em geral, s\u00e3o salas pequenas, com bancos de cimento e sem camas&#8221;. Os que chegam ali s\u00e3o os que foram detidos primeiro pela patrulha de fronteira ou ao longo da divisa, sob suspeita de atividade il\u00edcita, entrada ilegal nos EUA ou presen\u00e7a no pa\u00eds sem status migrat\u00f3rio adequado. A ideia \u00e9 que os detentos permane\u00e7am no centro pelo menor tempo poss\u00edvel, segundo o pr\u00f3prio CBP, enquanto seus casos correm na Justi\u00e7a e \u00e9 tomada uma decis\u00e3o sobre seus destinos.<\/p>\n<p><strong>A crise de 2014<\/strong><\/p>\n<p>Os questionamentos sobre as condi\u00e7\u00f5es das celas cresceram a partir de 2014, por conta dos grandes fluxos de migrantes menores de idade sem documentos que chegaram aos EUA, explica Astrid Dom\u00ednguez, diretora do Centro de Direitos na Fronteira da Uni\u00e3o Americana de Liberdade Civis (ACLU, em ingl\u00eas). &#8220;Naquele ano, as den\u00fancias n\u00e3o foram isoladas. Come\u00e7amos a ver que havia muita gente detida sob condi\u00e7\u00f5es abusivas, que incluem a temperatura fria extrema&#8221;, diz. Dom\u00ednguez visitou diversas dessas instala\u00e7\u00f5es em nome da ACLU entre 2014 e 2016. Ela diz ter visto pessoas dormindo no piso, cobrindo-se com mantas t\u00e9rmicas, e agentes agasalhados por conta das baixas temperaturas.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/Eec7jyuV7UIVJrVzy1ywYKIe644=\/0x0:1700x1065\/1000x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2018\/Y\/N\/0OL6g3QJAodqwr0XzDOg\/102012175-vdgl000004a-2.jpg\" \/><\/p>\n<p><strong>Imagens<\/strong><\/p>\n<p>Foi em 2016, no entanto, que imagens captadas por c\u00e2meras de seguran\u00e7a de um desses centros deram pistas mais claras sobre o ocorrido ali dentro. O CBP tornou as imagens p\u00fablicas depois que um grupo de migrantes processou o \u00f3rg\u00e3o pelas condi\u00e7\u00f5es desses locais. As fotos mostram mulheres, homens e crian\u00e7as em celas para migrantes na cidade de Douglas, Arizona, em setembro de 2015. O processo, movido com a assessoria da ACLU e da AIC, diz que os migrantes foram detidos em &#8220;celas sujas, geladas e sobrepovoadas, ao longo de dias&#8221;. Denunciou, ainda, que eles n\u00e3o tiveram aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica apropriada nem acesso a itens b\u00e1sicos de higiene, como sabonete, fralda e papel higi\u00eanico suficiente. O caso ainda tramita na Justi\u00e7a, mas uma ordem judicial preliminar, de dezembro de 2017, estabeleceu que os detidos nas celas do Arizona devem ter acesso a colchonetes e artigos de higiene pessoal. O pr\u00f3prio governo, por interm\u00e9dio do Escrit\u00f3rio de Responsabilidade Governamental dos EUA, constatou casos de deten\u00e7\u00f5es superiores a 72 horas. Um relat\u00f3rio de 2016 recomendou \u00e0 CBP que monitorasse &#8220;os dados sobre a quantidade de tempo que as pessoas ficam sob sua cust\u00f3dia&#8221;.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/hT3lZnRB8eVdsaebXh0XVF2BeU0=\/0x0:1700x1065\/1000x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2018\/G\/Q\/kBRZzeSbaZZojrCinOig\/102012171-vdgl000002a-1.jpg\" \/><\/p>\n<p><strong>E agora?<\/strong><\/p>\n<p>O manual de pr\u00e1ticas de deten\u00e7\u00e3o do CBP \u00e9 de 2015, quando Barack Obama ainda era presidente. Mas h\u00e1 quem se pergunte se o endurecimento das pol\u00edticas migrat\u00f3rias sob Donald Trump mudou algo na opera\u00e7\u00e3o desses centros. At\u00e9 o momento n\u00e3o houve an\u00fancios oficiais a respeito do funcionamento desses centros, mas a morte, em maio, de uma migrante centro-americana voltou a lan\u00e7ar luz sobre as &#8220;geladeiras&#8221;. Ativistas denunciaram que Roxana Hern\u00e1ndez, que tinha HIV, ficou doente ap\u00f3s passar cinco dias em um centro de deten\u00e7\u00e3o de curto prazo em San Diego, na Calif\u00f3rnia. &#8220;Ela passou frio, n\u00e3o teve alimenta\u00e7\u00e3o adequada ou aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica necess\u00e1ria, com as luzes acesas as 24 horas do dia, presa&#8221;, dizem grupos de direitos humanos. As autoridades, por sua vez, afirmaram que Hern\u00e1ndez recebeu atendimento m\u00e9dico quando precisou dele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grupos s\u00e3o detidos em celas frias e insalubres, segundo relatos de migrantes; governo americano diz que as condi\u00e7\u00f5es dos centros s\u00e3o adequadas. Jenny sentia tanto frio que n\u00e3o conseguia dormir nem se livrar de uma persistente dor de cabe\u00e7a. Horas antes, ela havia molhado sua roupa e os sapatos cruzando, ao lado do filho e de um coiote (atravessador), o rio que separa o M\u00e9xico dos EUA, na reta final de uma jornada migrat\u00f3ria que havia come\u00e7ado em El Salvador. Mas, minutos ap\u00f3s atravessarem o rio, eles foram pegos pela patrulha migrat\u00f3ria e viveram a experi\u00eancia mais traum\u00e1tica da jornada. 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