{"id":34907,"date":"2018-07-02T07:17:57","date_gmt":"2018-07-02T11:17:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=34907"},"modified":"2018-07-02T07:17:57","modified_gmt":"2018-07-02T11:17:57","slug":"imigrante-conta-sua-historia-em-centro-de-detencao-familiar-nos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2018\/07\/02\/imigrante-conta-sua-historia-em-centro-de-detencao-familiar-nos-eua\/","title":{"rendered":"Imigrante conta sua hist\u00f3ria em centro de deten\u00e7\u00e3o familiar nos EUA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sa\u00ed de El Salvador e vim para este pa\u00eds em 2014, em busca de seguran\u00e7a para mim e meu filho. Em vez disso, eu me vi trancafiada em um centro de deten\u00e7\u00e3o familiar de imigrantes. \u00c9 uma experi\u00eancia que n\u00e3o desejo para ningu\u00e9m.<\/strong><\/p>\n<p>Quando soube que quase 3.000 crian\u00e7as tinham sido separadas dos pais na fronteira, fiquei arrasada.\u00a0 Agora Donald Trump bate no peito dizendo que suspendeu esse procedimento, colocando pais e filhos em centros de deten\u00e7\u00e3o familiar \u2014pris\u00f5es como aquela em que meu filho, na \u00e9poca com seis anos, e eu ficamos. S\u00f3 que essa n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o, apenas transforma um trauma em outro.<\/p>\n<p>Fui for\u00e7ada a fugir do meu pa\u00eds por causa da viol\u00eancia e das amea\u00e7as contra mim e minha fam\u00edlia. Quando era adolescente, meu pai e eu testemunhamos um assassinato cometido por membros da gangue local. Em 2005, ele foi morto por ter prestado depoimento.\u00a0 As gangues tamb\u00e9m me amea\u00e7aram, mas, como o caso do homic\u00eddio foi arquivado, pude tocar a vida e at\u00e9 consegui um emprego na pol\u00edcia. Entretanto, v\u00e1rios anos depois, voltaram a amea\u00e7ar me matar. Foi quando decidi que tinha que deixar o pa\u00eds, levando meu filho e minha irm\u00e3 de 16 anos comigo. Se tiv\u00e9ssemos ficado, ter\u00edamos sido todos mortos.<\/p>\n<p>El Salvador tem uma das taxas de criminalidade mais altas do mundo, por isso eu sabia que a amea\u00e7a era s\u00e9ria. Precisava encontrar um lugar seguro para a minha irm\u00e3, meu filho e para mim.\u00a0 Nossa \u00fanica op\u00e7\u00e3o era fugir para um pa\u00eds onde n\u00e3o poder\u00edamos ser encontrados com facilidade: os EUA. S\u00f3 que, mesmo depois de cruzar a fronteira, n\u00e3o tivemos al\u00edvio; pelo contr\u00e1rio, passamos dois meses detidos em um centro em Artesia, no Novo M\u00e9xico, de propriedade de uma empresa particular. As condi\u00e7\u00f5es de vida ali eram horr\u00edveis. A comida quase sempre estava estragada, o leite, azedo, e as crian\u00e7as n\u00e3o recebiam nada para comer entre as refei\u00e7\u00f5es principais. Se e quando guard\u00e1vamos alguma coisa, tomavam tudo, alegando medo de ratos nos dormit\u00f3rios. As crian\u00e7as iam dormir com fome.<\/p>\n<p>S\u00f3 tom\u00e1vamos \u00e1gua entre as refei\u00e7\u00f5es se ped\u00edssemos aos guardas, que nem sempre nos atendiam. E, se beb\u00eassemos a que nos davam, acab\u00e1vamos doentes. N\u00e3o era lugar para nenhum ser humano, quanto mais para fam\u00edlias com crian\u00e7as. Quando elas adoeciam, t\u00ednhamos que esperar v\u00e1rios dias pelo atendimento m\u00e9dico. Quando uma m\u00e3e, cuja filha tinha asma, avisou os funcion\u00e1rios que a menina precisava de cuidados, ouviu que devia ter pensado nisso antes de tentar entrar nos EUA. Outra pediu assist\u00eancia para o filho, mas n\u00e3o recebeu. Foi deportada e o garoto acabou morrendo meses depois. \u00c9ramos proibidas de dormir na mesma cama que nossos filhos, mesmo os mais novinhos, que precisavam da m\u00e3e por perto para se sentirem seguros. As deporta\u00e7\u00f5es geralmente aconteciam durante a madrugada, quando o pessoal era acordado com lanternas apontadas para o rosto.<\/p>\n<p>A maioria dos guardas n\u00e3o falava espanhol, o que dificultava a comunica\u00e7\u00e3o. A coisa era ainda pior para as mulheres ind\u00edgenas que s\u00f3 falavam a l\u00edngua nativa. Uma vez, for\u00e7aram uma \u00edndia a tomar banho quando estava menstruada, violando n\u00e3o s\u00f3 sua privacidade como tamb\u00e9m sua cren\u00e7a cultural.\u00a0 Sendo mulher, testemunhar esse tipo de tratamento foi desolador \u2014e nunca esqueci, embora j\u00e1 tenha acontecido h\u00e1 anos. At\u00e9 que nos un\u00edssemos e come\u00e7\u00e1ssemos a fazer exig\u00eancias, n\u00e3o havia nenhuma assist\u00eancia legal que nos informasse de nossos direitos e nos orientasse ao longo do processo do pedido de asilo. Muitas mulheres foram deportadas antes de qualquer audi\u00eancia, pressionadas a assinar os pap\u00e9is de banimento. O efeito disso tudo nos nossos filhos foi ineg\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os mais novos n\u00e3o conseguiam entender por que n\u00e3o podiam sair. As hist\u00f3rias que inventavam recriavam os perigos pelos quais tinham passado para chegar ali.\u00a0 Os personagens de suas brincadeiras eram os coiotes (contrabandistas que ajudam as pessoas a atravessarem a fronteira), \u201cla migra\u201d (os patrulheiros de fronteira) e os ju\u00edzes.\u00a0 O mundo delas se resumia ao centro de deten\u00e7\u00e3o. As que tinham idade para entender o que estava acontecendo n\u00e3o aceitavam a situa\u00e7\u00e3o, e ouvi falar de adolescentes que tentaram se suicidar. Meu filho, hoje com dez anos, raramente fala da experi\u00eancia e, por isso, \u00e9 muito dif\u00edcil saber at\u00e9 que ponto ela o afetou. Por\u00e9m, como o pai foi detido recentemente, ele come\u00e7ou a se lembrar \u2014e a se preocupar. Vivo\u00a0me perguntando se ele est\u00e1 sendo tratado como n\u00f3s fomos. E n\u00e3o sei como responder porque tamb\u00e9m me lembro do que passamos. Minha irm\u00e3 ca\u00e7ula tamb\u00e9m sofreu na deten\u00e7\u00e3o. J\u00e1 tinha sido afetada pela situa\u00e7\u00e3o em El Salvador e pela morte de nosso pai, mas ficar presa no centro a abalou ainda mais.\u00a0 A falta de liberdade e o tratamento subumano resultaram em uma depress\u00e3o profunda; ainda hoje ela precisa de apoio psiqui\u00e1trico constante.<\/p>\n<p>Outras crian\u00e7as que conheci no centro tamb\u00e9m ficaram traumatizadas, t\u00eam pavor de policiais em geral e vivem com medo de voltar \u00e0 deten\u00e7\u00e3o. Afinal, elas se lembram do local exatamente pelo que \u00e9: uma pris\u00e3o. Depois da revolta generalizada contra a separa\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias como consequ\u00eancia de sua pol\u00edtica de toler\u00e2ncia zero, Trump assinou uma ordem executiva que mant\u00e9m as fam\u00edlias unidas nos centros de imigra\u00e7\u00e3o indefinidamente. S\u00f3 que isso n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma senten\u00e7a. Quem j\u00e1 passou pela deten\u00e7\u00e3o familiar n\u00e3o pode se calar sabendo que muitas fam\u00edlias v\u00e3o passar pelo que n\u00f3s j\u00e1 passamos. O governo Trump tem que parar de processar os pais cuja \u00fanica infra\u00e7\u00e3o cometida foi a de cruzar a fronteira. Tem que parar de coloc\u00e1-los atr\u00e1s das grades, assim como seus filhos, em institui\u00e7\u00f5es criadas por empresas que s\u00f3 pensam em lucro. N\u00e3o faz sentido punir com requintes de crueldade os imigrantes em busca de asilo por tentarem fazer o que todo pai faz, ou seja, proteger os filhos, mant\u00ea-los em seguran\u00e7a. Aqueles que est\u00e3o fugindo de situa\u00e7\u00f5es perigosas devem ter direito \u00e0 chance de encontrar seguran\u00e7a nos EUA. O meu caso ainda est\u00e1 em andamento e meus filhos e eu continuamos aguardando a audi\u00eancia final. Caso o asilo me for concedido, n\u00e3o vai acabar o medo que continuo sentindo. Minha m\u00e3e permanece em El Salvador, mas eu nunca mais vou poder voltar para l\u00e1.\u00a0 Pelo menos agora estamos em um lugar seguro, e meu filho, recebendo cuidados, mas jamais vou me esquecer daqueles dois meses de terror.<\/p>\n<p><sub><strong>A autora, uma salvadorenha em busca de asilo, escreveu o artigo em condi\u00e7\u00e3o de anonimato por causa das amea\u00e7as que ela e sua fam\u00edlia receberam, tanto nos EUA como em El Salvador<\/strong><\/sub><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sa\u00ed de El Salvador e vim para este pa\u00eds em 2014, em busca de seguran\u00e7a para mim e meu filho. Em vez disso, eu me vi trancafiada em um centro de deten\u00e7\u00e3o familiar de imigrantes. \u00c9 uma experi\u00eancia que n\u00e3o desejo para ningu\u00e9m. Quando soube que quase 3.000 crian\u00e7as tinham sido separadas dos pais na fronteira, fiquei arrasada.\u00a0 Agora Donald Trump bate no peito dizendo que suspendeu esse procedimento, colocando pais e filhos em centros de deten\u00e7\u00e3o familiar \u2014pris\u00f5es como aquela em que meu filho, na \u00e9poca com seis anos, e eu ficamos. 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