{"id":35110,"date":"2018-07-16T12:40:26","date_gmt":"2018-07-16T16:40:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=35110"},"modified":"2018-07-16T12:40:26","modified_gmt":"2018-07-16T16:40:26","slug":"revoltante-criancas-imigrantes-limpavam-privadas-e-seguiam-ordens-em-abrigos-nos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2018\/07\/16\/revoltante-criancas-imigrantes-limpavam-privadas-e-seguiam-ordens-em-abrigos-nos-eua\/","title":{"rendered":"Revoltante: Crian\u00e7as imigrantes limpavam privadas e seguiam ordens em abrigos nos EUA"},"content":{"rendered":"<p>Seja comportado. N\u00e3o sente no ch\u00e3o. N\u00e3o compartilhe sua comida. N\u00e3o use apelidos. E \u00e9 melhor n\u00e3o chorar. Se voc\u00ea chorar, isso pode prejudicar seu processo.\u00a0 As luzes s\u00e3o apagadas \u00e0s 21h e acesas ao amanhecer, e depois disso voc\u00ea tem que arrumar sua cama seguindo as instru\u00e7\u00f5es passo a passo fixadas \u00e0 parede. Lave o banheiro e passe pano no ch\u00e3o, escove as pias e privadas. Depois disso \u00e9 hora de formar uma fila para o caf\u00e9 da manh\u00e3. \u201cA gente tinha que fazer fila para tudo\u201d, recordou Leticia, uma garota da Guatemala.<\/p>\n<p>Pequena, magra e com cabelos pretos compridos, Leticia foi separada de sua m\u00e3e depois de elas terem atravessado a fronteira ilegalmente no final de maio. Ela foi enviada a um abrigo no sul do Texas, um dos mais de cem centros de deten\u00e7\u00e3o encomendados pelo governo para abrigar crian\u00e7as migrantes, espalhados pelo pa\u00eds e que s\u00e3o um misto de escola interna, creche e pres\u00eddio de seguran\u00e7a m\u00e9dia. Esses centros s\u00e3o reservados para pessoas como Leticia, 12 anos, e seu irm\u00e3o Walter, 10.<\/p>\n<p>A lista de proibi\u00e7\u00f5es do centro incluiu a seguinte: n\u00e3o toque em outra crian\u00e7a, mesmo que essa crian\u00e7a seja seu irm\u00e3ozinho ou irm\u00e3zinha.<\/p>\n<p>Leticia queria dar um abra\u00e7o em seu irm\u00e3o menor, para deix\u00e1-lo mais tranquilo. Mas, recordou, \u201cme disseram que eu n\u00e3o podia encostar nele\u201d.<\/p>\n<div>\n<div class=\"widget-image\">\n<figure><img class=\"img-responsive\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316824245b4b9e780ef62_1531682424_3x2_md.jpg\" sizes=\"(min-width: 1024px) 68vw, 100vw\" srcset=\" https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316824245b4b9e780ef62_1531682424_3x2_th.jpg 100w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316824245b4b9e780ef62_1531682424_3x2_sm.jpg 480w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316824245b4b9e780ef62_1531682424_3x2_md.jpg 768w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316824245b4b9e780ef62_1531682424_3x2_lg.jpg 1024w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316824245b4b9e780ef62_1531682424_3x2_xl.jpg 1200w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316824245b4b9e780ef62_1531682424_3x2_rt.jpg 2400w \" alt=\"crian\u00e7a com bonecos de pel\u00facia\" \/><figcaption class=\"widget-image__subtitle\">Adan Galicia Lopez, 3, ficou separado de sua m\u00e3e por quatro meses, em Phoenix (EUA) ORG XMIT: XNYT3<br \/>\n&#8211; <span class=\"widget-image__credits\">Victor J.Blue &#8211; 10.jul.2018\/NYT<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Em resposta a rea\u00e7\u00f5es de indigna\u00e7\u00e3o internacional, o presidente Donald Trump emitiu recentemente uma ordem executiva para acabar com a pr\u00e1tica de sua administra\u00e7\u00e3o, adotada amplamente em maio, de tirar crian\u00e7as \u00e0 for\u00e7a de seus pais migrantes que tivessem entrado no pa\u00eds ilegalmente. ]<\/p>\n<p>Sob essa pol\u00edtica \u201ctoler\u00e2ncia zero\u201d de implementa\u00e7\u00e3o das leis de fronteira, milhares de crian\u00e7as foram enviadas para centros de deten\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes situados a centenas ou milhares de quil\u00f4metros de onde seus pais estavam sendo detidos para serem processados criminalmente.<\/p>\n<p>At\u00e9 a semana passada o governo devolveu a pais migrantes pouco mais de metade das 103 crian\u00e7as de at\u00e9 5 anos de idade cuja devolu\u00e7\u00e3o foi determinada por ordem judicial.<\/p>\n<p>Mas mais de 2.800 outras crian\u00e7as permanecem nesses centros, locais cujos ambientes variam da austeridade impessoal a algo quase buc\u00f3lico, exceto pelo fato de as crian\u00e7as serem fortemente desencorajadas de partir e de seus pais ou respons\u00e1veis estarem distantes.<\/p>\n<p>Algumas dessas crian\u00e7as foram separadas de seus pais, enquanto outras foram classificadas na fronteira como \u201cmenores desacompanhados\u201d.<\/p>\n<p>Dependendo de diversas vari\u00e1veis, incluindo a sorte, uma crian\u00e7a pode ser enviada a um abrigo juvenil de 13 hectares em Yonkers, Nova York, com mesas de piquenique, campos esportivos e at\u00e9 uma piscina ao ar livre.<\/p>\n<p>\u201cComo um acampamento de f\u00e9rias\u201d, disse o deputado democrata Eliot N. Engel, que visitou o local recentemente.<\/p>\n<p>Ou a mesma crian\u00e7a pode acabar em um motel convertido ao lado de uma estrada deprimente em Tucson, Arizona, com lojas de descontos, postos de gasolina e hot\u00e9is baratos de beira de estrada. A recrea\u00e7\u00e3o acontece em uma \u00e1rea fechada sem gramado, e a piscina do velho motel est\u00e1 coberta e fora de uso.<\/p>\n<div>\n<div class=\"widget-image\">\n<figure><img class=\"img-responsive\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316825045b4b9ec87d593_1531682504_3x2_md.jpg\" sizes=\"(min-width: 1024px) 68vw, 100vw\" srcset=\" https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316825045b4b9ec87d593_1531682504_3x2_th.jpg 100w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316825045b4b9ec87d593_1531682504_3x2_sm.jpg 480w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316825045b4b9ec87d593_1531682504_3x2_md.jpg 768w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316825045b4b9ec87d593_1531682504_3x2_lg.jpg 1024w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316825045b4b9ec87d593_1531682504_3x2_xl.jpg 1200w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316825045b4b9ec87d593_1531682504_3x2_rt.jpg 2400w \" alt=\"Menores em sala de processamento em unidade da fronteira em Tucson (Arizona) \" \/><figcaption class=\"widget-image__subtitle\">Menores em sala de processamento em unidade da fronteira em Tucson (Arizona) ORG XMIT: XNYT4<br \/>\n&#8211; <span class=\"widget-image__credits\">Doug Mills &#8211; 18.jun.2018\/The New York Times<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Mas parece haver elementos comuns a todos esses centros, quer fiquem no norte do Illinois ou no sul do Texas: o grande n\u00famero de regras. O toque de despertar e o toque de apagar as luzes. As v\u00e1rias horas de aulas di\u00e1rias, que podem incluir uma aula de educa\u00e7\u00e3o c\u00edvica sobre hist\u00f3ria e leis americanas, embora n\u00e3o necessariamente as leis que os levaram a ser encarcerados.<\/p>\n<p>Mas o que mais une todos esses centros \u00e9 uma aura coletiva de incerteza dolorosa, com dezenas de crian\u00e7as reunidas sob o mesmo teto, todas sem ideia de quando v\u00e3o rever seus pais.<\/p>\n<p>Do abrigo onde estava no sul do Texas, Leticia escreveu cartas \u00e0 sua m\u00e3e, detida no Arizona, para lhe dizer o quanto ela lhe fazia falta. Ela contou que escrevia as cartas rapidamente depois de terminar a li\u00e7\u00e3o de matem\u00e1tica, para n\u00e3o infringir outra regra: \u00e9 proibido escrever no dormit\u00f3rio. \u00c9 proibido mandar ou receber correspond\u00eancia.<\/p>\n<p>Ela guardou as cartas em uma pasta para o dia em que ela e sua m\u00e3e forem reunidas, o que ainda n\u00e3o aconteceu. \u201cJ\u00e1 tenho uma pilha\u201d, ela disse.<\/p>\n<p>Outra crian\u00e7a pediu \u00e0 sua advogada para colocar no correio uma carta \u00e0 sua m\u00e3e detida, de quem ela n\u00e3o tinha not\u00edcias depois de tr\u00eas semanas separadas.<\/p>\n<p>\u201cMam\u00e3e, te amo, te adoro e estou morrendo de saudades\u201d, escreveu a garota em letras de forma. E suplicou: \u201cPor favor Mam\u00e3e se comunique comigo. Por favor, M\u00e3e. Tomara que voc\u00ea esteja bem. Voc\u00ea \u00e9 a melhor coisa da minha vida\u201d.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es complexas da reforma da imigra\u00e7\u00e3o e policiamento da fronteira incomodam os presidentes dos EUA h\u00e1 pelo menos duas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A administra\u00e7\u00e3o Trump chegou \u00e0 Casa Branca em 2017 com a promessa de acabar com esses problemas. Durante v\u00e1rios meses ela optou por uma das medidas dissuasivas mais \u00e1speras j\u00e1 adotada por um presidente nos tempos modernos: separar crian\u00e7as migrantes de seus pais.<\/p>\n<p>Eis o que vai ficar marcado na mem\u00f3ria de algumas dessas crian\u00e7as.<\/p>\n<div>\n<div class=\"widget-image\">\n<figure><img class=\"img-responsive\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/05\/15308406015b3ec6199ed94_1530840601_3x2_md.jpg\" sizes=\"(min-width: 1024px) 68vw, 100vw\" srcset=\" https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/05\/15308406015b3ec6199ed94_1530840601_3x2_th.jpg 100w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/05\/15308406015b3ec6199ed94_1530840601_3x2_sm.jpg 480w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/05\/15308406015b3ec6199ed94_1530840601_3x2_md.jpg 768w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/05\/15308406015b3ec6199ed94_1530840601_3x2_lg.jpg 1024w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/05\/15308406015b3ec6199ed94_1530840601_3x2_xl.jpg 1200w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/05\/15308406015b3ec6199ed94_1530840601_3x2_rt.jpg 2400w \" alt=\"\" \/><figcaption class=\"widget-image__subtitle\">A brasileira Sirley Silveira Paixao e seu filho Diego, depois de ele ter sido liberado de centro de deten\u00e7\u00e3o, em Chicago<br \/>\n&#8211; <span class=\"widget-image__credits\">Charles Rex Arbogast &#8211; 5.jul.2018\/Associated Press<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<h3 class=\"c-news__subtitle\">\u00c9 proibido tocar, \u00e9 proibido correr<\/h3>\n<p>Diego Magalh\u00e3es, um garoto brasileiro de cabelos castanhos cacheados, passou 43 dias em um abrigo em Chicago depois de ser separado de sua m\u00e3e, Sirley Paix\u00e3o, quando eles atravessaram a fronteira, no final de maio. Ele n\u00e3o chorou, como prometeu a ela quando foram separados. Diego sente orgulho disso. Ele tem 10 anos.<\/p>\n<p>Ele passou a primeira noite no ch\u00e3o de um centro de processamento, com outras crian\u00e7as, e no dia seguinte embarcou em um avi\u00e3o. \u201cPensei que estavam me levando para ver minha m\u00e3e.\u201d<\/p>\n<p>Ele estava enganado.<\/p>\n<p>Chegando em Chicago, recebeu roupas novas que comparou a um uniforme: camisetas, duas bermudas, um conjunto de moleton, cuecas e alguns artigos de higiene. Foi colocado em um quarto com tr\u00eas outros meninos, incluindo dois outros brasileiros, Diogo, 9, e Leonardo, 10.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas ficaram amigos. Eles iam \u00e0s aulas juntos, jogavam muito futebol e ganharam status de \u201cbig brother\u201d por servirem de exemplos positivos para as crian\u00e7as menores. Como pr\u00eamio, ganharam o direito de jogar videogame.<\/p>\n<p>Havia regras. Era proibido tocar outras pessoas. Era proibido correr. Era preciso levantar \u00e0s 6h30 nos dias de semana; os funcion\u00e1rios ficavam fazendo barulho, batendo em objetos, at\u00e9 as crian\u00e7as se levantarem.<\/p>\n<p>\u201cA gente tinha de deixar o banheiro limpinho\u201d, contou Diego. \u201cEu lavava o banheiro. T\u00ednhamos de tirar o lixo cheio de papel higi\u00eanico sujo. Todo o mundo tinha de fazer isso.\u201d<\/p>\n<p>Diego e os 15 outros meninos de sua unidade faziam as refei\u00e7\u00f5es juntos. Comiam arroz e feij\u00e3o, salame, alguns legumes, uma pizza ocasional, de vez em quando bolo e sorvete. Os burritos eram ruins, ele contou.<\/p>\n<p>Tirando a preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o saber quando poderia rever sua m\u00e3e, Diego disse que n\u00e3o sentia medo, porque ele era sempre bem comportado. Ele ficava de olho para avistar um funcion\u00e1rio \u201cque n\u00e3o era uma pessoa boa\u201d.<\/p>\n<p>Tinha visto o que aconteceu com Adonias, um menino pequeno da Guatemala que tinha ataques e jogava as coisas no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cDavam inje\u00e7\u00f5es nele porque ele ficava muito agitado\u201d, contou Diego. \u201cEle destru\u00eda coisas.\u201d<\/p>\n<p>Uma pessoa que Diego descreveu como \u201co m\u00e9dico\u201d dava inje\u00e7\u00f5es em Adonias no meio das aulas. \u201cEle dormia.\u201d<\/p>\n<p>Diego conseguiu se manter calmo em parte porque tinha prometido \u00e0 sua m\u00e3e que o faria. Na semana passada um juiz federal de Chicago ordenou que ele fosse devolvido \u00e0 sua fam\u00edlia. Antes de partir ele se despediu de Leonardo.<\/p>\n<p>\u201cFalamos \u2018tchau, boa sorte\u2019\u201d, Diego recordou. \u201cTenha uma vida boa.\u201d<\/p>\n<p>Mas, devido \u00e0s regras, eles n\u00e3o se abra\u00e7aram.<\/p>\n<div>\n<div class=\"widget-image\">\n<figure><img class=\"img-responsive\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316827255b4b9fa5d90b7_1531682725_3x2_md.jpg\" sizes=\"(min-width: 1024px) 68vw, 100vw\" srcset=\" https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316827255b4b9fa5d90b7_1531682725_3x2_th.jpg 100w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316827255b4b9fa5d90b7_1531682725_3x2_sm.jpg 480w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316827255b4b9fa5d90b7_1531682725_3x2_md.jpg 768w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316827255b4b9fa5d90b7_1531682725_3x2_lg.jpg 1024w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316827255b4b9fa5d90b7_1531682725_3x2_xl.jpg 1200w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/07\/15\/15316827255b4b9fa5d90b7_1531682725_3x2_rt.jpg 2400w \" alt=\"Yoselyn Bulux, 15, da Guatemala, foi separada da sua m\u00e3e na fronteira com os EUA\" \/><figcaption class=\"widget-image__subtitle\">Yoselyn Bulux, 15, da Guatemala, foi separada da sua m\u00e3e na fronteira com os EUA<br \/>\n&#8211; <span class=\"widget-image__credits\">Ryan Christopher Jones &#8211; 5.jul.2018\/The New York Times<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<h3 class=\"c-news__subtitle\">Aulas de matem\u00e1tica e sobre presidentes<\/h3>\n<p>Yoselyn Bulux, 15 anos, \u00e9 uma menina mag\u00e9rrina de Totonicap\u00e1n, Guatemala, com cabelos escuros compridos. Ela n\u00e3o se recorda direito como encontrou for\u00e7as para escalar o muro na fronteira.<\/p>\n<p>O que aconteceu depois disso foi ainda mais dif\u00edcil: dois dias em um centro de processamento gelado conhecido como \u201ca geladeira\u201d e depois uma viagem de \u00f4nibus de dois dias para um grande centro de abrigo em algum lugar do Texas. Sua m\u00e3e ficou no Arizona.<\/p>\n<p>O centro novo tinha ar condicionado, mas n\u00e3o era t\u00e3o frio quanto a geladeira, que deixou Yoselyn com dor de garganta. Havia janelas, e durante o dia batia sol no local. Fora do per\u00edmetro do centro crescia capim alto, como o capim \u201czacate\u201d que se v\u00ea ao lado da rodovia.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea de triagem do centro, onde parecia haver mais ou menos 300 garotas, algumas delas gr\u00e1vidas, Yoselyn recebeu algumas roupas e uma folha de papel com um n\u00famero. Havia regras a serem seguidas.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea fizer algo de errado, eles a denunciam e voc\u00ea ter\u00e1 de\u00a0ficar mais tempo ali\u201d, Yoselyn explicou.<\/p>\n<p>Os dias seguiam uma programa\u00e7\u00e3o estruturada. Com outras adolescentes, Yoselyn teve aulas de matem\u00e1tica, linguagem \u2013 aprendeu a falar \u201cbom dia\u201d, \u201cboa tarde\u201d e \u201cboa noite\u201d em ingl\u00eas \u2013 e educa\u00e7\u00e3o c\u00edvica, disciplina na qual tiveram aulas sobre presidentes dos Estados Unidos. Donald Trump foi mencionado, ela contou.<\/p>\n<p>Todos os dias as meninas sa\u00edam ao p\u00e1tio por uma hora para fazer exerc\u00edcio f\u00edsico no ar quente do Texas. N\u00e3o era incomum ver algu\u00e9m tentar uma fuga repentina. Nada de cochichos anteriores ou planejamento pr\u00e9vio \u2013apenas uma corrida repentina at\u00e9 a cerca. Nenhuma das meninas conseguiu fugir.<\/p>\n<p>Nas noites de sexta e s\u00e1bado as meninas assistiam a filmes. Tamb\u00e9m no s\u00e1bado, Yoselyn tinha um encontro com uma terapeuta. Ela gostava das conversas. Elas conversaram sobre sua esperan\u00e7a de se tornar m\u00e3e em breve. Ela s\u00f3 chorou em duas ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era f\u00e1cil. Embora Yoselyn pudesse falar ao telefone com sua m\u00e3e de vez em quando \u2013a primeira vez foi dez dias ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o&#8211;, as conversas e fofocas entre as meninas \u00e0s vezes a deixavam confusa e tensa.<\/p>\n<p>\u201cAlgumas das meninas diziam que \u00edamos sair de l\u00e1, outras falavam que ser\u00edamos deportadas.\u201d<\/p>\n<p>Finalmente, no dia 1\u00ba de julho, chegou a vez de Yoselyn partir. Ela foi levada de avi\u00e3o a Nova York, a primeira viagem de avi\u00e3o de sua vida. Durante o voo, assistiu ao filme \u201cViva \u2013 A Vida \u00e9 Uma Festa\u201d. Depois sua acompanhante entregou Yoselyn a seu pai, que ficou t\u00e3o emocionado ao ver a filha que n\u00e3o conseguiu falar.<\/p>\n<h3 class=\"c-news__subtitle\">Um anivers\u00e1rio passa em branco<\/h3>\n<p>Victor Monroy n\u00e3o estava entendendo. Era o domingo, 24 de junho. Seu anivers\u00e1rio. Ele agora tinha 11 anos.<\/p>\n<p>Mas ningu\u00e9m no lugar para onde ele e sua irm\u00e3 menor tinham sido enviados parecia saber ou ligar para isso. Ningu\u00e9m lhe cantou parab\u00e9ns, como sua m\u00e3e teria feito. Finalmente Victor resolveu falar aos adultos daquele lugar estranho sobre sua data pessoal importante.<\/p>\n<p>\u201cEles me disseram \u2018feliz cumplea\u00f1os\u2019\u201d, ele recordou. \u201cS\u00f3 isso.\u201d<\/p>\n<p>Em vista de tudo o que estava acontecendo, esse momento pode parecer algo de import\u00e2ncia menor, at\u00e9 inconsequente. Mas talvez o fato de seu anivers\u00e1rio de 11 anos ter passado despercebido ainda, daqui a anos, evoque para Victor os 41 dias que ele contou que ele e sua irm\u00e3 Leidy, de 9 anos, passaram em um lugar chamado Casa Guadalupe, sem ideia durante semanas de onde estava sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 ela quem sempre cuidou de mim, a vida inteira\u201d, disse Victor.<\/p>\n<p>Ele e Leidy sa\u00edram da Guatemala de \u00f4nibus, mas chegaram aos Estados Unidos em um caminh\u00e3o articulado. Quase imediatamente foram levados a um lugar cheio de outros migrantes. Depois, tarde da noite, agentes da fronteira come\u00e7aram a coloc\u00e1-los em um ve\u00edculo, enquanto a m\u00e3e deles, que estava sendo mantida no Arizona, tentava rapidamente explicar a seus filhos o que estava acontecendo.<\/p>\n<p>Pouco depois Victor e Leidy estavam viajando de avi\u00e3o, pela primeira vez na vida, a caminho de um lugar chamado Chicago. Ali foram levados a um abrigo, receberam roupas novas e foram separados. Victor foi levado para a \u00e1rea dos meninos, Leidy para o das meninas.<\/p>\n<p>Nas v\u00e1rias semanas seguintes, o \u00fanico momento em que Victor e Leidy se viam era durante o recreio ao ar livre. Victor contou que, se pedisse autoriza\u00e7\u00e3o, lhe deixavam passar at\u00e9 meia hora com sua irm\u00e3.<\/p>\n<p>A rotina di\u00e1ria deles era igual \u00e0 que milhares de outras crian\u00e7as migrantes estavam vivendo pelo pa\u00eds afora. Toque de acordar muito cedo, tarefas dom\u00e9sticas a cumprir, aulas. Victor e Leidy s\u00f3 puderam falar com a m\u00e3e deles depois de um m\u00eas. Onde ela estava? Quando eles poderiam sair de l\u00e1? Apenas em um momento Victor se deixou dominar pela sua frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Naquele dia, na \u00e1rea de recrea\u00e7\u00e3o, outro garoto roubou a bola com que Victor estava brincando, e ele se descontrolou. Quando foi hora de voltar para dentro, ele se recusou.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o dois homens, um dos quais chamado Tito, o agarraram pelos bra\u00e7os e o arrastaram para dentro. \u201cFalei a ele que n\u00e3o tinha o direito de fazer aquilo comigo\u201d, disse Victor. \u201cE ele falou que sim, que tinha o direito de fazer o que quisesse.\u201d<\/p>\n<p>Semanas mais tarde, Victor ainda estava revoltado e aflito.<\/p>\n<p>Mas pelo menos ele contava com uma assistente social chamada Linda que o ajudava a se orientar em seu novo mundo. \u201cEla fez tudo que p\u00f4de para localizar minha m\u00e3e\u201d, Victor contou. \u201cTelefonou para todos os estados do pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>Finalmente foi tra\u00e7ado um plano: Victor e Leidy seriam enviados para ficar com seu pai, na Nova Inglaterra, que eles n\u00e3o viam havia v\u00e1rios anos. Na noite antes de partirem, o garoto salvadorenho Franklin, que dividia um quarto com Victor e se tornara seu amigo, estava tendo dificuldade em dormir.<\/p>\n<p>\u201cAcho que ele n\u00e3o dormiu a noite inteira porque eu ia embora\u201d, falou Victor.<\/p>\n<p>De fato, quando adultos vieram buscar Victor pela manh\u00e3, Franklin estava acordado para se despedir dele. \u201cEle me desejou muita sorte\u201d, disse Victor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seja comportado. N\u00e3o sente no ch\u00e3o. N\u00e3o compartilhe sua comida. N\u00e3o use apelidos. E \u00e9 melhor n\u00e3o chorar. Se voc\u00ea chorar, isso pode prejudicar seu processo.\u00a0 As luzes s\u00e3o apagadas \u00e0s 21h e acesas ao amanhecer, e depois disso voc\u00ea tem que arrumar sua cama seguindo as instru\u00e7\u00f5es passo a passo fixadas \u00e0 parede. Lave o banheiro e passe pano no ch\u00e3o, escove as pias e privadas. Depois disso \u00e9 hora de formar uma fila para o caf\u00e9 da manh\u00e3. \u201cA gente tinha que fazer fila para tudo\u201d, recordou Leticia, uma garota da Guatemala. 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