{"id":35210,"date":"2018-07-23T07:27:22","date_gmt":"2018-07-23T11:27:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=35210"},"modified":"2018-07-23T07:27:22","modified_gmt":"2018-07-23T11:27:22","slug":"imigracao-nao-faria-de-novo-diz-mae-brasileira-separada-do-filho-nos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2018\/07\/23\/imigracao-nao-faria-de-novo-diz-mae-brasileira-separada-do-filho-nos-eua\/","title":{"rendered":"Imigra\u00e7\u00e3o: N\u00e3o faria de novo, diz m\u00e3e brasileira separada do filho nos EUA"},"content":{"rendered":"<p>Quando acordou com os gritos na madrugada, em uma cama de concreto, Jaene Silva de Miranda sabia o que iria testemunhar. Tinha visto outras m\u00e3es imigrantes serem separadas dos filhos ap\u00f3s atravessarem ilegalmente a fronteira dos Estados Unidos. S\u00f3 n\u00e3o sabia que seria a sua vez. &#8220;Uma mulher na minha cela viu meu filho e gritou: brasile\u00f1o, brasile\u00f1o&#8221;, conta a brasileira de 45 anos, que estava num centro de deten\u00e7\u00e3o do Arizona, fronteira com o M\u00e9xico. <\/p>\n<p>Eram duas horas da manh\u00e3 &#8212; as separa\u00e7\u00f5es sempre ocorriam naquele hor\u00e1rio. Por uma pequena janela na porta, da qual via o corredor e as janelinhas de outras celas, ela avistou o filho mais novo, de 8 anos, com outras crian\u00e7as. Come\u00e7ou a bater na porta, t\u00e3o forte que achou que ia quebrar o vidro. Ao menino, a seu pedido, foram reunidos seus outros dois filhos, de 10 e 16 anos. Os irm\u00e3os foram conduzidos para um \u00f4nibus de itiner\u00e1rio ignorado. S\u00f3 veriam a m\u00e3e 44 dias depois. <\/p>\n<p>&#8220;A hora em que tiraram meus filhos, tiraram tudo de mim&#8221;, disse Miranda em entrevista \u00e0 Folha, j\u00e1 com a fam\u00edlia reunida, nesta sexta-feira (20). &#8220;Eu n\u00e3o faria de novo.&#8221; A fam\u00edlia saiu do interior de Minas Gerais rumo aos EUA. Fizeram o trajeto sozinhos, com dicas de quem j\u00e1 fora. Compraram passagens e enfrentaram cinco dias de viagem, em maio, com quatro voos e tr\u00eas horas a p\u00e9 pelo deserto. <\/p>\n<p>&#8220;Comprei um gal\u00e3ozinho de \u00e1gua, mas acabou. N\u00e3o tinha nada em volta, est\u00e1vamos s\u00f3 n\u00f3s. Acho que a gente desviou para o lugar errado. Quando vi o carro da pol\u00edcia, acenei e me entreguei&#8221;, lembrou. A m\u00e3e e as tr\u00eas crian\u00e7as foram separadas t\u00e3o logo chegaram ao centro de triagem &#8211; resultado da pol\u00edtica de toler\u00e2ncia zero do presidente Donald Trump contra a imigra\u00e7\u00e3o ilegal. Cada um foi para uma cela diferente. <\/p>\n<p>Eram pequenas salas, sem janelas, com dois bancos de concreto. A de Miranda tinha quase 60 mulheres. Dormiam no ch\u00e3o, cobertas por mantas de alum\u00ednio. &#8220;Era como mostraram nos jornais&#8221;, afirmou. Nos tr\u00eas primeiros dias, ela s\u00f3 conseguia ver o ca\u00e7ula, que estava numa cela do lado oposto. Acenava pela janelinha, mas n\u00e3o conseguia escut\u00e1-lo. Apenas o ouvia chorar. A \u00fanica refei\u00e7\u00e3o era macarr\u00e3o l\u00e1men instant\u00e2neo. No caf\u00e9, no almo\u00e7o e na janta. <\/p>\n<p>As crian\u00e7as ganhavam tamb\u00e9m suco e uma bolachinha. Mas quem n\u00e3o acordasse \u00e0s 6h n\u00e3o recebia a refei\u00e7\u00e3o da manh\u00e3. &#8220;Eu n\u00e3o acordava&#8221;, contou \u00e0 reportagem o mais novo dos irm\u00e3os. &#8220;O miojo era cru, a \u00e1gua era meio morna.&#8221; Um dia, um agente pediu \u00e0 m\u00e3e que fosse consolar a filha do meio. Ela s\u00f3 chorava e quase n\u00e3o comia. <\/p>\n<p>&#8220;Ela estava at\u00e9 com o pescocinho comprido. Emagreceu muito&#8221;, lembrou Miranda, que se assustou ao ver as olheiras da menina. &#8220;Estava tudo roxo, de tanto chorar.&#8221; Ela j\u00e1 sabia que seria separada dos filhos. Mas n\u00e3o lhe diziam para onde eles seriam levados. &#8220;Eles nunca falam nada. Te chamam, come\u00e7am a te revistar, te colocam no \u00f4nibus e pronto.&#8221; <\/p>\n<p>Ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o definitiva, naquela madrugada, quando as crian\u00e7as foram conduzidas a um abrigo de menores, ela ainda passou mais dez dias no centro de triagem. Depois, foi levada a outra pris\u00e3o. Depois a outra. E a outra. Sem falar nem entender espanhol nem ingl\u00eas, sua \u00fanica companhia era uma B\u00edblia em portugu\u00eas, obtida na cadeia. \u00c0s vezes, via TV, sem som, na sala de conviv\u00eancia. &#8220;S\u00f3 ficava olhando, para o tempo passar.&#8221; <\/p>\n<p>No abrigo de menores, a sete horas de dist\u00e2ncia pela estrada, os tr\u00eas irm\u00e3os ficaram em quartos separados. Ao chegarem, uma das primeiras orienta\u00e7\u00f5es foi repassada ao mais velho, no computador, com um aplicativo de tradu\u00e7\u00e3o: &#8220;N\u00e3o pode abra\u00e7ar&#8221;. &#8220;Eu falei: mas s\u00e3o meus irm\u00e3os. Estavam chorando. E eles me responderam que eram as regras&#8221;, disse o garoto. <\/p>\n<p>Na pris\u00e3o, contato f\u00edsico tamb\u00e9m era proibido. Os agentes avisaram \u00e0s imigrantes: &#8220;Se encostar em algu\u00e9m, te deportam&#8221;, disse Miranda. A mineira tem parentes nos EUA, mas n\u00e3o avisou que estava indo. Uma delas desconfiou ao ler uma reportagem em um jornal sobre o caso, que citava a idade das tr\u00eas crian\u00e7as. <\/p>\n<p>&#8220;Lii as idades e pensei: meu Deus, esse \u00e9 o mais velho. Essa \u00e9 a do meio. E esse \u00e9 o mais novo&#8221;, contou a prima dos menores, Geiza Miranda Ara\u00fajo, que vive perto de Boston, nordeste do pa\u00eds, a 4.250 de Tucson. Ela come\u00e7ou a vasculhar dados do ICE, a ag\u00eancia de imigra\u00e7\u00e3o americana, para buscar a tia. Passou um dia tentando contato e procurando o nome na internet. Descobriu o paradeiro quando resolveu trocar a ordem do sobrenome: Jaene Miranda da Silva. <\/p>\n<p>A fam\u00edlia contratou uma advogada, a brasileira Annelise Ara\u00fajo, que passou a acompanhar o caso. A c\u00f4nsul honor\u00e1ria do Brasil no Arizona, Rosilane Novaes, tamb\u00e9m visitou a m\u00e3e na pris\u00e3o, bem como as crian\u00e7as. Foi ela quem contou a Miranda onde seus filhos estavam, e conseguiu o primeiro telefonema para eles. &#8220;Foi o meu mais velho que atendeu. Era s\u00f3 choro. Eu de c\u00e1, ele de l\u00e1&#8221;, lembra Miranda. <\/p>\n<p>Os advogados pediram em audi\u00eancia que a m\u00e3e fosse liberada sob fian\u00e7a. Ela acompanhou por telefone. Foi a primeira vez que o caso foi ouvido por um juiz, sem tradutor. &#8220;Era tudo em ingl\u00eas. Eu dizia comigo: ela vai falar alguma coisa para mim, vai me explicar&#8221;, conta Miranda. &#8220;De repente, s\u00f3 ouvi um &#8216;thank you&#8217; [obrigada]. Pensei: ai&#8230; Desliguei e fiquei doida querendo saber o que tinha acontecido.&#8221; <\/p>\n<p>Num telefonema \u00e0 sobrinha, ela soube que seria solta sob fian\u00e7a de US$ 7.500 (cerca de R$ 28 mil). Mas n\u00e3o tinha certeza se veria as crian\u00e7as. Havia dias que a fam\u00edlia tentava liber\u00e1-las do abrigo, para mant\u00ea-las sob a guarda dos parentes nos EUA. O governo pediu documentos. Pediu digitais, para checar antecedentes criminais. Pediu tradu\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>S\u00e3o precau\u00e7\u00f5es da lei para combater o tr\u00e1fico humano e evitar expor os menores ao perigo. Mas a fam\u00edlia se queixa de que pediam uma coisa ap\u00f3s a outra, com dias de intervalo. &#8220;Era uma tortura&#8221;, disse a sobrinha. Miranda saiu da pris\u00e3o no dia 11 de julho. Foi entregue na rodovi\u00e1ria, onde pegaria um \u00f4nibus rumo a Boston. Ainda n\u00e3o sabia se veria os filhos. <\/p>\n<p>Horas antes, as crian\u00e7as haviam sa\u00eddo do abrigo, depois de muita insist\u00eancia dos advogados &#8211; que foram apelidados de &#8220;pain in the neck&#8221; (g\u00edria para inconveniente) pelos funcion\u00e1rios da institui\u00e7\u00e3o. Ao chegar \u00e0 rodovi\u00e1ria, a m\u00e3e viu a c\u00f4nsul brasileira. Sorriu e soltou uma l\u00e1grima. Mas ouviu dela: &#8220;N\u00e3o chore ainda. Olhe quem est\u00e1 l\u00e1&#8221;. Ao longe, viu seus tr\u00eas filhos. A menina e o mais novo j\u00e1 estavam de p\u00e9, aos prantos. &#8220;Corre&#8221;, disse a c\u00f4nsul. A rodovi\u00e1ria parou para ver. <\/p>\n<p>A fam\u00edlia n\u00e3o sabe o que vai acontecer. Miranda est\u00e1 em processo de deporta\u00e7\u00e3o, mas quer pedir asilo nos EUA. A advogada alega que a sa\u00edda do Brasil foi for\u00e7ada por circunst\u00e2ncias (que n\u00e3o descreve). As crian\u00e7as, por ora, se revezam no cangote da m\u00e3e e d\u00e3o abra\u00e7os a quem pedir. Miranda quer ficar junto dos filhos. &#8220;N\u00e3o quero mais aquele medo que eu passei.&#8221; A pr\u00e1tica de separar fam\u00edlias foi suspensa ap\u00f3s a repercuss\u00e3o negativa. O governo Trump tem mais quatro dias, por ordem judicial, para reunir todas as crian\u00e7as aos pais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando acordou com os gritos na madrugada, em uma cama de concreto, Jaene Silva de Miranda sabia o que iria testemunhar. 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