{"id":38789,"date":"2019-04-04T12:13:42","date_gmt":"2019-04-04T16:13:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=38789"},"modified":"2019-04-04T12:13:42","modified_gmt":"2019-04-04T16:13:42","slug":"o-historiador-da-grecia-antiga-que-previu-guerra-inevitavel-entre-eua-e-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2019\/04\/04\/o-historiador-da-grecia-antiga-que-previu-guerra-inevitavel-entre-eua-e-china\/","title":{"rendered":"O historiador da Gr\u00e9cia Antiga que \u2018previu guerra inevit\u00e1vel\u2018 entre EUA e China"},"content":{"rendered":"<p><strong>N\u00e3o faz muito tempo, a\u00a0ascens\u00e3o da China\u00a0era vista como essencialmente benigna. Uma economia em crescimento, pensava-se, andaria de m\u00e3os dadas com um\u00a0sistema pol\u00edtico mais liberal. A China estava, para usar uma frase popular entre especialistas americanos, tornando-se uma pot\u00eancia global respons\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n<p>Mas, hoje, a China \u00e9 cada vez mais vista como uma amea\u00e7a. De fato, muitos temem que a rivalidade entre China e Estados Unidos possa at\u00e9 levar a um conflito com ramifica\u00e7\u00f5es globais. Os dois pa\u00edses estariam em curso inevit\u00e1vel rumo \u00e0 guerra?<\/p>\n<p>Um novo conceito proposto nos Estados Unidos, que remete \u00e0 Gr\u00e9cia Antiga e ao trabalho de Tuc\u00eddides, o historiador da Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta, pode ajudar a responder esta quest\u00e3o<strong>.<\/strong><\/p>\n<p>O cientista pol\u00edtico Graham Allison, professor do Centro Belfer da Universidade de Harvard, \u00e9 um dos principais estudiosos das rela\u00e7\u00f5es internacionais americanas.<\/p>\n<p>Seu livro,\u00a0<em>Destined For War: Can America and China Avoid Thucydides Trap?\u00a0<\/em>(<em>Destinados \u00e0 guerra: Estados Unidos e China conseguir\u00e3o evitar a armadilha de Tuc\u00eddides?<\/em>, em tradu\u00e7\u00e3o livre; Houghton Mifflin, 2017), tornou-se leitura obrigat\u00f3ria para muitos formuladores de pol\u00edticas, acad\u00eamicos e jornalistas.<\/p>\n<p>A armadilha de Tuc\u00eddides, diz Allison, \u00e9 a din\u00e2mica perigosa que ocorre quando um poder em ascens\u00e3o amea\u00e7a a posi\u00e7\u00e3o de um poder j\u00e1 estabelecido &#8211; no passado, Atenas, e, hoje, os Estados Unidos.<\/p>\n<p>No antigo mundo grego, foi Atenas que amea\u00e7ou Esparta. No fim do s\u00e9culo 19 e come\u00e7o do s\u00e9culo 20, a Alemanha desafiou a Gr\u00e3-Bretanha. Hoje, uma China em ascens\u00e3o est\u00e1 potencialmente desafiando os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Ao analisar 500 anos de hist\u00f3ria, Allison identificou 16 exemplos de pot\u00eancias emergentes que confrontaram um poder estabelecido: em 12 dos casos, issou levou \u00e0 guerra.<\/p>\n<p>A rivalidade entre Washington e Pequim \u00e9, segundo ele, &#8220;a caracter\u00edstica que define as rela\u00e7\u00f5es internacionais atuais e no futuro pr\u00f3ximo&#8221;. Ent\u00e3o, perguntar se Estados Unidos e a China conseguir\u00e3o evitar a armadilha de Tuc\u00eddides n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o meramente acad\u00eamica. A armadilha rapidamente se tornou um grande prisma anal\u00edtico atrav\u00e9s do qual se pode ver a competi\u00e7\u00e3o entre Washington e Pequim.<\/p>\n<p>Claro, nem todo mundo concorda. &#8220;Acho que o equil\u00edbrio de poder n\u00e3o ap\u00f3ia a hip\u00f3tese da armadilha de Tuc\u00eddides&#8221;, diz Hu Bo, professor do Instituto de Pesquisas Oce\u00e2nicas da Universidade de Pequim e um dos principais estrategistas navais da China.<\/p>\n<p>Embora a ascens\u00e3o da China seja not\u00e1vel, ele acredita que sua for\u00e7a global simplesmente n\u00e3o seja compar\u00e1vel \u00e0 dos Estados Unidos. A China teria alguma chance de se equiparar ao poderio dos Estados Unidos apenas na regi\u00e3o do Pac\u00edfico Ocidental.<\/p>\n<p><strong>A crescente ambi\u00e7\u00e3o da China de Xi Jinping<\/strong><\/p>\n<p>Mas um confronto nesta regi\u00e3o poderia ser suficiente para levar essas duas grandes pot\u00eancias \u00e0 guerra. N\u00e3o menos importante \u00e9 o fato de que a China est\u00e1 buscando construir a maior armada naval do mundo.<\/p>\n<p>&#8220;Isso n\u00e3o \u00e9 apenas impressionante nos tempos atuais&#8221;, diz Andrew Erickson, professor de estrat\u00e9gia da Faculdade de Guerra Naval dos Estados Unidos e um dos principais especialistas em Marinha chinesa. &#8220;Isso \u00e9 impressionante em termos hist\u00f3ricos.&#8221;<\/p>\n<p>A qualidade dos equipamentos da China tamb\u00e9m est\u00e1 melhorando significativamente, com navios de guerra maiores e mais sofisticados, cujas capacidades, em muitos aspectos, est\u00e3o se aproximando das de embarca\u00e7\u00f5es ocidentais.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia mar\u00edtima chinesa tamb\u00e9m est\u00e1 se tornando mais assertiva.<\/p>\n<p>Embora o foco dessa assertividade permane\u00e7a, por enquanto, relativamente pr\u00f3ximo do territ\u00f3rio chin\u00eas, Pequim est\u00e1 tentando elevar os custos de uma poss\u00edvel interfer\u00eancia dos Estados Unidos em uma crise.<\/p>\n<p>Quer ser capaz de manter os americanos \u00e0 dist\u00e2ncia se, por exemplo, decidir usar sua for\u00e7a contra Taiwan. E os Estados Unidos est\u00e3o determinados a manter seu acesso \u00e0 regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas as crescentes tens\u00f5es sino-americanas tamb\u00e9m s\u00e3o produto de fortes personalidades.<\/p>\n<p>Elizabeth Economy, diretora de Estudos da \u00c1sia no Conselho de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, um centro de pesquisa baseado nos Estados Unidos, diz que Xi Jinping tem sido um l\u00edder transformador com &#8220;uma vis\u00e3o muito mais expansiva e ambiciosa sobre o lugar da China no cen\u00e1rio global&#8221;.<\/p>\n<p>Ela argumenta que o elemento mais subestimado da ambi\u00e7\u00e3o do presidente chin\u00eas \u00e9 &#8220;seu esfor\u00e7o para reformular normas e institui\u00e7\u00f5es do cen\u00e1rio global de um modo que reflita mais de perto os valores e prioridades chineses&#8221;.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos tamb\u00e9m est\u00e3o revendo sua posi\u00e7\u00e3o. Washington classificou a China, juntamente com a R\u00fassia, como uma &#8220;pot\u00eancia revisionista&#8221;, ao dizer que ambos querem &#8220;redifinir o mundo de acordo com seu modelo autorit\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>Os militares americanos agora consideram a China como um rival quase em p\u00e9 de igualdade, um ponto de refer\u00eancia com o qual os poderios naval e a\u00e9reo dos Estados Unidos devem ser comparados.<\/p>\n<h2>Uma segunda Guerra Fria?<\/h2>\n<p>Mas, ainda que haja um \u00e2nimo diferente em Washington, ainda est\u00e3o sendo dados os primeiros passos no estabelecimento de uma nova estrat\u00e9gia para lidar com Pequim.<\/p>\n<p>Alguns falam da possibilidade de uma segunda Guerra Fria, desta vez entre os Estados Unidos e a China. No entanto, ao contr\u00e1rio da Guerra Fria do s\u00e9culo 20, entre americanos e sovi\u00e9ticos, as economias americana e chinesa est\u00e3o profundamente interligadas. Isso d\u00e1 \u00e0 rivalidade uma nova dimens\u00e3o: uma batalha pelo dom\u00ednio tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A gigante de telecomunica\u00e7\u00f5es chinesa Huawei est\u00e1 no centro desta turbul\u00eancia. Os Estados Unidos est\u00e3o se recusando a permitir que a tecnologia da empresa seja usada em futuras redes de comunica\u00e7\u00e3o e est\u00e3o pressionando aliados para impor uma proibi\u00e7\u00e3o semelhante.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de restringir a compra de produtos da Huawei, os Estados Unidos tamb\u00e9m est\u00e3o processando criminalmente a empresa e sua diretora financeira, Meng Wanzhou, filha do fundador da companhia, Ren Zhengfei, que foi presa no Canad\u00e1 em dezembro, a pedido de autoridades americanas.<\/p>\n<p>A batalha de Washington com a Huawei exemplifica preocupa\u00e7\u00f5es mais amplas com o setor de alta tecnologia da China em rela\u00e7\u00e3o ao roubo de propriedade intelectual, vendas il\u00edcitas ao Ir\u00e3 e espionagem.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s de tudo isso, est\u00e1 o temor de que a China possa em breve dominar tecnologias-chave para a prosperidade futura, como internet, carros aut\u00f4nomos e intelig\u00eancia artificial. A economia e a estrat\u00e9gia global est\u00e3o intr\u00ednsicamente ligadas a este debate, com a China decidida a se tornar um ator global dominante na pr\u00f3xima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Isso obviamente depender\u00e1 da China continuar a crescer. H\u00e1 sinais de que sua economia pode estar enfrentando problemas ao se apegar ao modelo autorit\u00e1rio e rejeitar outras reformas de mercado. O que pode acontecer se o progresso econ\u00f4mico diminuir?<\/p>\n<p>Alguns argumentam que Xi Jinping pode conter suas ambi\u00e7\u00f5es. Outros temem que isso possa enfraquecer sua legitimidade na China e encoraj\u00e1-lo a fortalecer o nacionalismo, levando potencialmente a uma assertividade ainda maior.<\/p>\n<p>A rivalidade entre a China e os Estados Unidos \u00e9 real e n\u00e3o vai a lugar algum. Um erro de c\u00e1lculo estrat\u00e9gico \u00e9 um risco claro. Os dois pa\u00edses est\u00e3o em uma encruzilhada estrat\u00e9gica. Ou eles encontrar\u00e3o maneiras de acomodar os interesses um dos outro ou ter\u00e3o um relacionamento muito mais conflituoso.<\/p>\n<p>Isso nos traz de volta \u00e0 armadilha de Tuc\u00eddides. Mas Allison enfatiza que nada aqui est\u00e1 gravado em pedra. A guerra entre Estados Unidos e China n\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel. Seu livro, ele diz, \u00e9 sobre diplomacia, n\u00e3o sobre destino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o faz muito tempo, a\u00a0ascens\u00e3o da China\u00a0era vista como essencialmente benigna. Uma economia em crescimento, pensava-se, andaria de m\u00e3os dadas com um\u00a0sistema pol\u00edtico mais liberal. A China estava, para usar uma frase popular entre especialistas americanos, tornando-se uma pot\u00eancia global respons\u00e1vel. Mas, hoje, a China \u00e9 cada vez mais vista como uma amea\u00e7a. De fato, muitos temem que a rivalidade entre China e Estados Unidos possa at\u00e9 levar a um conflito com ramifica\u00e7\u00f5es globais. Os dois pa\u00edses estariam em curso inevit\u00e1vel rumo \u00e0 guerra? 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