{"id":39089,"date":"2019-04-26T12:12:16","date_gmt":"2019-04-26T16:12:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=39089"},"modified":"2019-04-26T12:12:16","modified_gmt":"2019-04-26T16:12:16","slug":"crise-migratoria-refugiados-climaticos-aumentam-caravanas-da-america-central-aos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2019\/04\/26\/crise-migratoria-refugiados-climaticos-aumentam-caravanas-da-america-central-aos-eua\/","title":{"rendered":"Crise migrat\u00f3ria: Refugiados clim\u00e1ticos aumentam caravanas da Am\u00e9rica Central aos EUA"},"content":{"rendered":"<p>Um motivo poderoso, persistente e pouco lembrado est\u00e1 ajudando a refor\u00e7ar as caravanas de migrantes rumo aos Estados Unidos. Al\u00e9m de fugirem da pobreza e da viol\u00eancia, os grupos que partem da Guatemala, de Honduras e de El Salvador s\u00e3o engrossados tamb\u00e9m por pessoas que tentam escapar da inseguran\u00e7a alimentar. Os tr\u00eas pa\u00edses integram o chamado \u201ccorredor seco\u201d centro-americano, um dos mais vulner\u00e1veis do mundo a fen\u00f4menos extremos ligados ao El Ni\u00f1o, nome dado ao aquecimento anormal da faixa equatorial do Oceano Pac\u00edfico. \u00c9 consenso entre cientistas que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas agravaram a frequ\u00eancia e intensidade desse fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>A imprevisibilidade dos ciclos da chuva, com temporadas de seca at\u00e9 dois meses mais longas alternadas com per\u00edodos de chuvas perigosamente intensas, vem progressivamente amea\u00e7ando as planta\u00e7\u00f5es de subsist\u00eancia na \u00faltima d\u00e9cada. Entre as principais v\u00edtimas est\u00e3o os cultivos de milho e feij\u00e3o, dos quais pequenos produtores rurais e ind\u00edgenas, sem acesso a tecnologias de irriga\u00e7\u00e3o, dependem para se alimentar.<\/p>\n<p>De acordo com Edwin Castellanos, diretor do instituto de pesquisas da Universidade Valle de Guatemala e associado do Instituto Interamericano para Pesquisa em Mudan\u00e7as Globais (IAI), o El Ni\u00f1o tem batido \u00e0 porta anualmente \u2014 antes, acontecia a cada cinco ou seis anos. O resultado \u00e9 o agravamento das condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o mais pobre desses tr\u00eas pa\u00edses \u2014 que constituem o chamado Tri\u00e2ngulo Norte da Am\u00e9rica Central. Segundo a Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (Cepal), vivem em situa\u00e7\u00e3o de pobreza 82% dos residentes de zonas rurais em Honduras; 77% na Guatemala; e 49% em El Salvador.<\/p>\n<p>\u201cPode n\u00e3o haver apenas um fator para que as pessoas migrem. Normalmente, elas j\u00e1 est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de pobreza; de falta de oportunidades econ\u00f4micas, que s\u00e3o muito pequenas nas zonas rurais; e de viol\u00eancia em diversas regi\u00f5es. E quando, ainda por cima, perdem planta\u00e7\u00f5es para as chuvas ou pela aus\u00eancia delas, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem ser o fator final para que tomem essa decis\u00e3o\u201d, disse Castellanos. A popula\u00e7\u00e3o desses pa\u00edses sofre com as tempestades de La Ni\u00f1a \u2014 fen\u00f4meno oposto ao El Ni\u00f1o, que ocorre quando h\u00e1 resfriamento do Pac\u00edfico \u2014, que causam enchentes e deslizamentos de terra. Os \u00faltimos seis anos foram de chuvas abaixo da m\u00e9dia. A expectativa \u00e9 que, nos pr\u00f3ximos anos, a situa\u00e7\u00e3o mude para o extremo oposto.<\/p>\n<p>Segundo estimativas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO), cerca de 60% dos cultivos de milho e at\u00e9 80% das planta\u00e7\u00f5es de feij\u00e3o foram perdidos nesses pa\u00edses, em 2015, por causa do El Ni\u00f1o. J\u00e1 em 2018, s\u00f3 entre junho e julho, foram arruinados 280 mil hectares de planta\u00e7\u00f5es desses dois produtos, o que afetou mais de 2 milh\u00f5es de pessoas, de acordo com o Programa Mundial de Alimentos (PMA). No total, a seca dos \u00faltimos anos levou cerca de 3,5 milh\u00f5es de pessoas a precisar de assist\u00eancia humanit\u00e1ria. E a regi\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m suscet\u00edvel a furac\u00f5es e terremotos.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/epoca.globo.com\/23620387-96e-f99\/FT1086A\/652\/79447414_TOPSHOTAerial-view-of-a-Honduran-migrant-caravan-heading-to-the-.jpg\" alt=\"Seguidas caravanas rumaram em dire\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o aos Estados Unidos desde outubro do ano passado. Na foto, a multid\u00c3\u00a3o atravessa a fronteira entre a Guatemala e o M\u00c3\u00a9xico. Foto: Pedro Pardo \/ AFP\" \/><\/p>\n<p>Para complicar ainda mais essa situa\u00e7\u00e3o, no \u00faltimo ano a queda do pre\u00e7o internacional do caf\u00e9 \u2014 produto importante dos tr\u00eas pa\u00edses \u2014 diminuiu as ofertas de emprego e os sal\u00e1rios m\u00e9dios nas monoculturas, explicou Miguel \u00c1ngel Garc\u00eda Arias, diretor regional na Am\u00e9rica Central da ONG A\u00e7\u00e3o contra a Fome. A somat\u00f3ria de problemas tende a tornar as rendas das comunidades de origem mais dependentes do dinheiro regularmente enviado por seus membros que j\u00e1 cruzaram a fronteira americana. Em 2016, essas remessas corresponderam a 10%, 17% e 20% dos Produtos Internos Brutos (PIBs) de Guatemala, El Salvador e Honduras, respectivamente.<\/p>\n<h3 style=\"padding-left: 60px;\">\u201cA SECA DOS \u00daLTIMOS ANOS LEVOU CERCA DE 3,5 MILH\u00d5ES DE PESSOAS A PRECISAR DE ASSIST\u00caNCIA HUMANIT\u00c1RIA EM HONDURAS, NA GUATEMALA E EM EL SALVADOR\u201d<\/h3>\n<p>\u201cA situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar pode ser t\u00e3o negativa que j\u00e1 existe uma liga\u00e7\u00e3o entre comunidades de origem e emigrantes. A migra\u00e7\u00e3o \u00e9 um elemento-chave dessa realidade. Os 70 mil guatemaltecos deportados do M\u00e9xico ou dos EUA s\u00f3 no ano passado nos d\u00e3o a magnitude do problema\u201d, afirmou Garc\u00eda Arias. Na Am\u00e9rica Central, os territ\u00f3rios para agricultura s\u00e3o em geral pequenos, e, com a perda paulatina de terras por causa de fen\u00f4menos ligados ao clima, comunidades mais vulner\u00e1veis se transferem a \u00e1reas de reserva ou menos produtivas. Pesquisas como a da professora Maria Cristina Garc\u00eda, da Universidade de Cornell, nos EUA, argumentam que a competi\u00e7\u00e3o por bens em cen\u00e1rios como esses aumenta as chances de conflito pol\u00edtico e viol\u00eancia sect\u00e1ria. J\u00e1 o brasileiro Marcos Regis da Silva, diretor-executivo do IAI, explicou que h\u00e1 preocupa\u00e7\u00f5es sobre o impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas sobre a recupera\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es e ecossistemas ap\u00f3s fen\u00f4menos extremos.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 quando uma floresta semi\u00e1rida poder\u00e1 voltar a seu estado natural ap\u00f3s a seca? Se antes a recupera\u00e7\u00e3o demorava dez anos, hoje esse tempo \u00e9 muito maior. Muitos pesquisadores tamb\u00e9m acreditam que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas estejam trazendo novas pestes ou reintroduzindo doen\u00e7as erradicadas, como mal\u00e1ria e febre amarela. Os ecossistemas est\u00e3o estressados a um ponto que n\u00e3o conhecemos e, quanto mais eles perdem resili\u00eancia, mais as comunidades pobres v\u00e3o sofrer. E \u00e9 a\u00ed que mora o perigo\u201d, disse Regis da Silva.<\/p>\n<p>Uma espiral de precariedade social e degrada\u00e7\u00e3o ambiental pode refor\u00e7ar ainda mais a falta de alternativas para a popula\u00e7\u00e3o rural. Organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos lembram que os fluxos migrat\u00f3rios n\u00e3o devem ser tratados como processos amea\u00e7adores ou a serem coibidos. Entretanto, \u00e9 importante que as pessoas n\u00e3o sejam for\u00e7adas a abandonar suas fam\u00edlias e culturas para se aventurar em longas viagens, com o \u00fanico objetivo de sobreviver. Nos estados do sul mexicano, at\u00e9 30% dos migrantes centro-americanos relataram em 2017 ter sido v\u00edtimas ou testemunhas de viol\u00eancia \u2014 normalmente, os crimes incluem sequestros, abusos sexuais, extors\u00e3o e assassinatos \u2014, segundo a Rede de Documenta\u00e7\u00e3o das Organiza\u00e7\u00f5es Defensoras de Migrantes. \u00c9 tamb\u00e9m frequente que os camponeses penhorem suas terras para pagar coiotes, mesmo sob risco de serem deportados e, na volta, ficarem sem nada. Entre 2017 e 2018, as deten\u00e7\u00f5es no M\u00e9xico de indocumentados do Tri\u00e2ngulo Norte aumentaram em 59%, e s\u00f3 cerca de 19% deles chegaram aos EUA, diz a Cepal.<\/p>\n<p>Um debate relativamente recente, \u00e9 questionada a validade do termo \u201crefugiado clim\u00e1tico\u201d \u2014 que n\u00e3o \u00e9 adotado pela ONU \u2014 para se referir \u00e0queles que foram for\u00e7ados a se transferir em decorr\u00eancia de fen\u00f4menos ligados ao clima que amea\u00e7aram sua exist\u00eancia ou afetaram gravemente sua qualidade de vida. O Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno afirma que 26,4 milh\u00f5es de pessoas na \u00faltima d\u00e9cada migraram no mundo por causa de enchentes, tempestades, terremotos ou secas.<\/p>\n<p>Acad\u00eamicos e organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais usam a express\u00e3o para defender a concess\u00e3o de status legal protetivo e pol\u00edticas p\u00fablicas especiais a popula\u00e7\u00f5es afetadas pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, sobretudo de pa\u00edses em desenvolvimento. A brit\u00e2nica Climate and Migration Coalition pondera, entretanto, que a cautela \u00e9 importante para evitar a interpreta\u00e7\u00e3o de que esses fluxos migrat\u00f3rios s\u00e3o decorrentes apenas das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Na verdade, v\u00eam de contextos de vulnerabilidade e, n\u00e3o raro, de neglig\u00eancia pol\u00edtica. As solu\u00e7\u00f5es para mitigar as necessidades dessas popula\u00e7\u00f5es rurais e ind\u00edgenas n\u00e3o residem apenas nas metas ambientais estabelecidas por acordos mundiais a longu\u00edssimo prazo, argumentou Garc\u00eda Arias. \u00c9 necess\u00e1ria a articula\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias com foco direto em Honduras, Guatemala e El Salvador, embora esses pa\u00edses sejam respons\u00e1veis por uma \u00ednfima por\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es globais de carbono \u2014 em 2014, por exemplo, s\u00f3 0,37% do total global.<\/p>\n<p>\u201cEstamos falando de pa\u00edses com escassos investimentos sociais em sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e infraestrutura b\u00e1sica, o que reduz muito a possibilidade de fam\u00edlias sa\u00edrem de ciclos de pobreza. \u00c9 nas redes de prote\u00e7\u00e3o social que temos uma margem para trazer melhorias. A aus\u00eancia de Estado, combinada a um modelo agroexportador dependente de gr\u00e3os b\u00e1sicos, faz com que os pa\u00edses sejam muito vulner\u00e1veis a desastres e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d, disse o especialista.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m de eventuais inefici\u00eancia e corrup\u00e7\u00e3o, a falta de recursos no corredor seco torna os fluxos de ajuda estrangeira uma fonte importante. Contudo, entre outros dilemas, as verbas podem ficar sujeitas a bons la\u00e7os diplom\u00e1ticos. Desde o ano passado, ao menos duas vezes os EUA cortaram centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares de programas de desenvolvimento para os governos do Tri\u00e2ngulo Norte \u2014 a \u00faltima delas em 30 de mar\u00e7o \u2014 como puni\u00e7\u00e3o por sua suposta ina\u00e7\u00e3o para conter os migrantes rumo ao norte. E, para Edwin Castellanos, os recursos ainda se concentram pouco na adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. \u201cPrecisamos investir em estoques de \u00e1gua e sistemas de irriga\u00e7\u00e3o para pequenos produtores. Mas isso requer dinheiro, e precisamos complementar o esfor\u00e7o dos governos e de ONGs locais com financiamento internacional. A maioria dos recursos se destina a governan\u00e7a, seguran\u00e7a ou al\u00edvio da pobreza de forma gen\u00e9rica\u201d, afirmou Castellanos, ex-assessor especial para a Presid\u00eancia da Guatemala nas negocia\u00e7\u00f5es do Acordo de Paris. \u201cAqui basicamente sentimos o efeito da polui\u00e7\u00e3o e esperamos que os pa\u00edses grandes a resolvam. Desse jeito, mesmo que os EUA construam um muro, muitas pessoas ainda tentar\u00e3o cruz\u00e1-lo.\u201d<\/p>\n<p>Fonte: Revista Epoca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um motivo poderoso, persistente e pouco lembrado est\u00e1 ajudando a refor\u00e7ar as caravanas de migrantes rumo aos Estados Unidos. Al\u00e9m de fugirem da pobreza e da viol\u00eancia, os grupos que partem da Guatemala, de Honduras e de El Salvador s\u00e3o engrossados tamb\u00e9m por pessoas que tentam escapar da inseguran\u00e7a alimentar. Os tr\u00eas pa\u00edses integram o chamado \u201ccorredor seco\u201d centro-americano, um dos mais vulner\u00e1veis do mundo a fen\u00f4menos extremos ligados ao El Ni\u00f1o, nome dado ao aquecimento anormal da faixa equatorial do Oceano Pac\u00edfico. \u00c9 consenso entre cientistas que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas agravaram a frequ\u00eancia e intensidade desse fen\u00f4meno. 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