{"id":40171,"date":"2019-07-18T18:02:40","date_gmt":"2019-07-18T22:02:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=40171"},"modified":"2019-07-18T18:02:40","modified_gmt":"2019-07-18T22:02:40","slug":"as-financas-do-atletico-mg-em-2018-austera-a-direcao-ainda-nao-encontrou-o-ponto-de-equilibrio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2019\/07\/18\/as-financas-do-atletico-mg-em-2018-austera-a-direcao-ainda-nao-encontrou-o-ponto-de-equilibrio\/","title":{"rendered":"As finan\u00e7as do Atl\u00e9tico-MG em 2018: austera, a dire\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o encontrou o ponto de equil\u00edbrio"},"content":{"rendered":"<p>Poucos presidente ganharam a antipatia da torcida t\u00e3o r\u00e1pido quanto\u00a0S\u00e9rgio Sette C\u00e2mara. O advogado come\u00e7ou a sua administra\u00e7\u00e3o no in\u00edcio de 2018, e havia protestos direcionados a ele partindo das arquibancadas j\u00e1 no m\u00eas de maio \u2013\u00a0ap\u00f3s a elimina\u00e7\u00e3o na Sul-Americana e a derrota no Campeonato Mineiro para o rival. Parte da rejei\u00e7\u00e3o se explica pelo hist\u00f3rico atleticano recente. Em uma das d\u00e9cadas mais vitoriosas de sua hist\u00f3ria, o torcedor se acostumou a ver o time brigar por t\u00edtulos. Quando o desempenho esportivo cai, a culpa \u00e9 do atual presidente. Outra parte tem rela\u00e7\u00e3o com uma palavra que virou sin\u00f4nimo para Sette C\u00e2mara:\u00a0austeridade.<\/p>\n<p>Para que se entenda a responsabilidade do atual presidente sobre a crise atual, \u00e9 preciso voltar no tempo. No caso do Atl\u00e9tico-MG, a viagem \u00e9 longa. Enquanto na hist\u00f3ria recente do futebol brasileiro houve clubes que alternaram entre bons e maus momentos, do ponto de vista financeiro, os atleticanos estiveram sempre entre maus e p\u00e9ssimos.<\/p>\n<p>Entre 2002 e 2018, portanto um per\u00edodo que inclui desde o rebaixamento \u00e0 segunda divis\u00e3o at\u00e9 a hist\u00f3rica conquista da Libertadores, o Atl\u00e9tico-MG s\u00f3 terminou o ano com superavit (lucro) uma \u00fanica vez. Em 2016. Em todos os outros, gastos foram maiores do que receitas. Pois \u00e9 justamente desse dinheiro que faltou para fechar a conta em cada temporada que foram acumuladas mais d\u00edvidas.<\/p>\n<p>Neste mesmo per\u00edodo, a rela\u00e7\u00e3o entre endividamento e faturamento nunca foi menor do que\u00a0duas vezes. Em 2002, os R$ 98 milh\u00f5es devidos pelo clube a todo tipo de credor representaram exatamente duas vezes a soma de todas as receitas, em R$ 48 milh\u00f5es. Esta rela\u00e7\u00e3o chegou a\u00a0cinco vezes\u00a0no ano do rebaixamento em 2005. Depois da reestrutura\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou com\u00a0Alexandre Kalil\u00a0e passou por\u00a0Daniel Nepomuceno, voltou \u00e0s mesmas\u00a0duas vezes. Em 2018, no primeiro ano de administra\u00e7\u00e3o de Sette C\u00e2mara, esta rela\u00e7\u00e3o subiu novamente para\u00a02,8.<\/p>\n<p>O hist\u00f3rico atleticano serve como contexto para que o torcedor se d\u00ea conta de algo que t\u00edtulos talvez tenham ocultado. O Atl\u00e9tico-MG tem uma das cargas mais pesadas do futebol brasileiro, nunca resolvida desde as crises vividas nos anos 1990. Isso n\u00e3o isenta Sette C\u00e2mara dos resultados de seu primeiro ano de administra\u00e7\u00e3o, mas ajuda o torcedor a entender por que as coisas chegaram ao estado encontrado em 2018.<\/p>\n<p>Um dos principais problemas para a filosofia que Sette C\u00e2mara pretende implementar \u00e9 que, no caso do futebol, o desempenho esportivo costuma ser prejudicado por planos de austeridade como o proposto por ele. \u00c0 medida que h\u00e1 menos jogadores badalados em campo e eles vencem menos partidas, receitas que est\u00e3o diretamente vinculadas \u00e0 performance caem. Foi o que aconteceu em 2018.<\/p>\n<p>A elimina\u00e7\u00e3o nas oitavas de final da Copa do Brasil causou uma discrep\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o a advers\u00e1rios que foram mais longe, pois as cotas de participa\u00e7\u00e3o obtidas a cada fase superada s\u00e3o importantes para fazer o clube fluir financeiramente. No balan\u00e7o, essas cotas s\u00e3o compreendidas como direitos de transmiss\u00e3o porque t\u00eam a Globo como fonte pagadora. Parece pouco, mas n\u00e3o ter chegado \u00e0s quartas de final como em 2017 e 2019 faz diferen\u00e7a nas contas do cotidiano.<\/p>\n<p>Ainda em rela\u00e7\u00e3o aos direitos de transmiss\u00e3o, a temporada de 2018 foi a primeira em muitos anos a n\u00e3o contar com o recebimento de luvas (pr\u00eamio) pela assinatura de novos contratos. O clube que tinha recebido R$ 36 milh\u00f5es em 2015, R$ 27 milh\u00f5es em 2016 e R$ 64 milh\u00f5es em 2017 de repente viu essa receita n\u00e3o recorrente cair a zero. Sette C\u00e2mara n\u00e3o p\u00f4de contar com luvas, como tiveram Nepomuceno e Kalil antes dele, pois n\u00e3o havia novo contrato a ser negociado com a televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Outras receitas ligadas ao desempenho esportivo tamb\u00e9m ca\u00edram. O s\u00f3cio torcedor rendeu menos do que no ano anterior, as bilheterias ca\u00edram pela metade. Mesmo com um positivo sexto lugar no Campeonato Brasileiro, para a torcida a competi\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve a mesma gra\u00e7a que uma Copa do Brasil ou uma Libertadores. Na \u00e1rea comercial, que tamb\u00e9m sente o efeito do des\u00e2nimo generalizado e ainda \u00e9 prejudicada pela crise econ\u00f4mica no pa\u00eds, patroc\u00ednios diminu\u00edram.<\/p>\n<p>A \u00fanica linha de faturamento que efetivamente subiu em 2018, na compara\u00e7\u00e3o com o ano anterior, foi a venda de jogadores. Entraram R$ 53 milh\u00f5es l\u00edquidos de participa\u00e7\u00f5es e comiss\u00f5es a intermedi\u00e1rios. O\u00a0meia venezuelano Otero foi emprestado para fazer caixa, por exemplo. E a f\u00f3rmula continuou a ser usada em 2019. A\u00a0sa\u00edda do lateral Emerson para o B\u00e9tis, como ponte para o Barcelona, tem a ver com a situa\u00e7\u00e3o financeira delicada em que est\u00e1 o clube.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a do Atl\u00e9tico-MG, sobretudo na compara\u00e7\u00e3o com o Cruzeiro, \u00e9 que a dire\u00e7\u00e3o do clube j\u00e1 se deu conta de que n\u00e3o podia continuar a elevar gastos. O endividamento atleticano chegou a tal ponto que fazer novos investimentos, contando com t\u00edtulos que poderiam n\u00e3o ser conquistados de qualquer maneira, poderia tornar o legado financeiro ainda mais pesado e preocupante para o presidente que vir\u00e1 a seguir.<\/p>\n<p>Duas compara\u00e7\u00f5es mostram como a austeridade prometida por Sette C\u00e2mara virou pr\u00e1tica. A folha salarial do clube em 2018 foi de R$ 123 milh\u00f5es, enquanto a do ano anterior havia sido de R$ 136 milh\u00f5es. Houve uma redu\u00e7\u00e3o relevante. Na compara\u00e7\u00e3o com o Cruzeiro,\u00a0que gastou nada menos do que R$ 226 milh\u00f5es com sal\u00e1rios e direitos de imagem\u00a0de jogadores e comiss\u00e3o t\u00e9cnica, fica ainda mais evidente a diverg\u00eancia entre rivais que t\u00eam portes financeiros similares.<\/p>\n<p>Gastos administrativos tamb\u00e9m foram reduzidos pela dire\u00e7\u00e3o atleticana em seu \u00faltimo balan\u00e7o, ent\u00e3o austeridade houve. A quest\u00e3o \u00e9 que as receitas ca\u00edram em volume t\u00e3o grande quanto o das despesas. \u00c9 como se voc\u00ea, nas suas finan\u00e7as pessoais, tivesse se sacrificado para economizar no mercado, para reduzir as contas de \u00e1gua e energia el\u00e9trica, todos inc\u00f4modos necess\u00e1rios para que o ano seguinte seja melhor, mas tivesse tamb\u00e9m perdido o emprego ou uma renda importante.<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o financeira tamb\u00e9m passa pela an\u00e1lise do endividamento. Quando separamos as d\u00edvidas atleticanas conforme o prazo para pagamento, fica mais claro como a situa\u00e7\u00e3o atual \u00e9 emergencial. Apenas no curto prazo \u2013 ou seja, d\u00edvidas que precisam ser pagas no decorrer de 2019 \u2013 o clube mineiro tem quase R$ 200 milh\u00f5es a pagar em d\u00edvidas. Se considerarmos que ainda h\u00e1 despesas para colocar na conta das obriga\u00e7\u00f5es referentes a atual temporada, a conclus\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 uma s\u00f3. N\u00e3o h\u00e1 como dar conta de tudo.<\/p>\n<p>A administra\u00e7\u00e3o de Sette C\u00e2mara conseguiu vit\u00f3rias importantes na esfera financeira. A reestrutura\u00e7\u00e3o do endividamento,\u00a0feita por executivos como o agora ex-diretor financeiro Carlos Fabel, que saiu em janeiro de 2019, permitiu que o clube trocasse d\u00edvidas com juros altos por outras com juros mais baixos. Em outras palavras, o Atl\u00e9tico-MG pegou dinheiro emprestado com um custo financeiro menor do que as d\u00edvidas que possu\u00eda anteriormente. O resultado disso \u00e9 que o endividamento continua alto em n\u00fameros brutos, mas custa menos no dia a dia. S\u00f3 em juros foram economizados quase R$ 5 milh\u00f5es em 2018.<\/p>\n<p>Institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias t\u00eam sido nos \u00faltimos anos o motivo pelo qual o Atl\u00e9tico-MG n\u00e3o quebrou. A quantidade de dinheiro que o clube movimenta nesse sentido \u00e9 muito maior do que em outras pra\u00e7as. S\u00f3 em 2018 foram tomados R$ 202 milh\u00f5es em novos empr\u00e9stimos e pagos R$ 146 milh\u00f5es em empr\u00e9stimos antigos \u2013 e voc\u00ea pode perceber, pela diferen\u00e7a entre um n\u00famero e outro, que o endividamento banc\u00e1rio aumentou R$ 56 milh\u00f5es em quest\u00e3o de um ano. S\u00f3 que esta solu\u00e7\u00e3o acabar\u00e1 por bater no limite de cr\u00e9dito que o clube tem no mercado.<\/p>\n<p>Toda vez que se fala nas d\u00edvidas atleticanas, por exemplo, algum torcedor ergue a m\u00e3o para lembrar da propriedade de um shopping localizado em bairro nobre que pode ser vendido. O\u00a0clube decidiu recentemente vender a metade deste patrim\u00f4nio por R$ 250 milh\u00f5es para tocar as obras de seu novo est\u00e1dio. A outra metade n\u00e3o deixa de ser um trunfo diante dos problemas financeiros, uma vantagem que praticamente nenhum outro clube brasileiro possui, no entanto um trunfo que n\u00e3o pode ser desperdi\u00e7ado sem que a casa esteja em ordem.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que nenhuma solu\u00e7\u00e3o de curto prazo \u2013 seja a tomada de novos empr\u00e9stimos, seja a venda da outra metade do shopping \u2013 resolver\u00e1 o verdadeiro problema atleticano. Enquanto n\u00e3o houver equil\u00edbrio entre receitas e despesas, para que no fim do ano sobre dinheiro, em vez de faltar, o endividamento cr\u00f4nico continuar\u00e1 a pesar sobre o futebol. Sette C\u00e2mara p\u00f4s em pr\u00e1tica a sua austeridade no primeiro ano de gest\u00e3o, tem sofrido pessoalmente as consequ\u00eancias disso, e at\u00e9 agora n\u00e3o obteve resultados satisfat\u00f3rios. Ele tem mais dois anos para tentar reverter um quadro que prejudica o Atl\u00e9tico-MG h\u00e1 duas d\u00e9cadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucos presidente ganharam a antipatia da torcida t\u00e3o r\u00e1pido quanto\u00a0S\u00e9rgio Sette C\u00e2mara. O advogado come\u00e7ou a sua administra\u00e7\u00e3o no in\u00edcio de 2018, e havia protestos direcionados a ele partindo das arquibancadas j\u00e1 no m\u00eas de maio \u2013\u00a0ap\u00f3s a elimina\u00e7\u00e3o na Sul-Americana e a derrota no Campeonato Mineiro para o rival. 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