{"id":47832,"date":"2021-04-01T17:51:51","date_gmt":"2021-04-01T21:51:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=47832"},"modified":"2021-04-01T17:51:51","modified_gmt":"2021-04-01T21:51:51","slug":"crise-migratoria-na-fronteira-dos-eua-com-o-mexico-atinge-pequena-cidade-do-texas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2021\/04\/01\/crise-migratoria-na-fronteira-dos-eua-com-o-mexico-atinge-pequena-cidade-do-texas\/","title":{"rendered":"Crise migrat\u00f3ria na fronteira dos EUA com o M\u00e9xico atinge pequena cidade do Texas"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00c9 meia-noite e a campainha toca na casa de Silvia, uma professora da pequena comunidade hist\u00f3rica de Roma, no Texas. Quem chama \u00e9 uma jovem que est\u00e1 encharcada e implora por ajuda. Silvia mora em frente ao caminho arenoso que centenas de migrantes sem documentos passam assim que cruzam o Rio Grande e desembarcam nos Estados Unidos.<\/strong><\/p>\n<p>Como os 11 mil habitantes desta cidade no Vale do Rio Grande, na fronteira entre os Estados Unidos e o M\u00e9xico, convive com imigrantes sem documentos h\u00e1 d\u00e9cadas. Muitos t\u00eam sentimentos variados: compaix\u00e3o e empatia por aqueles que chegam em busca de um futuro melhor, como muitas de suas pr\u00f3prias fam\u00edlias fizeram anos atr\u00e1s, mas tamb\u00e9m preocupa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 medo pelo n\u00famero crescente de migrantes nos \u00faltimos dois meses, \u00e0s vezes 500 por noite, incluindo muitas fam\u00edlias e menores viajando sozinhos.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/FO-YsO3T2GMPuhc08dGjSoTpZGE=\/0x0:6048x4024\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2021\/f\/m\/T1lb5BSxA6BHZB4U4yDg\/000-9769x2.jpg\" alt=\"Homem no lado americano da fronteira EUA e M\u00e9xico observa o Rio Grande, que divide os pa\u00edses, em Roma (Texas), em foto de 27 de mar\u00e7o \u2014 Foto: Ed Jones\/AFP\" \/><\/p>\n<p>&#8220;O que vamos fazer com todas essas crian\u00e7as? Onde vamos coloc\u00e1-las? Tamb\u00e9m temos gente aqui que precisa de ajuda&#8221;, explica Silvia na porta de sua modesta casa, onde tem galinhas e javalis e j\u00e1 instalou c\u00e2meras de seguran\u00e7a. A professora, de 58 anos, entregou roupas secas para a jovem que havia ca\u00eddo do barco pilotado por coiotes e quase se afogou ao cruzar o rio, mas n\u00e3o quis emprestar seu telefone para que ela fizesse uma liga\u00e7\u00e3o. &#8220;S\u00e3o muitos. Estou com medo. Algo precisa ser feito&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Roma \u00e9 um s\u00edtio hist\u00f3rico nacional fundado h\u00e1 250 anos e tamb\u00e9m conhecido por ser um excelente local para a observa\u00e7\u00e3o de p\u00e1ssaros. A grande maioria dos habitantes fala tanto espanhol como ingl\u00eas, s\u00e3o de origem mexicana e trabalham como funcion\u00e1rios p\u00fablicos ou em oleodutos. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, venceu a elei\u00e7\u00e3o aqui, ainda que por pouco.<\/p>\n<p><strong>Empatia<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Entendemos os imigrantes porque conhecemos suas experi\u00eancias, suas hist\u00f3rias s\u00e3o tamb\u00e9m a nossa hist\u00f3ria. A \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o que tenho como prefeito \u00e9 se isso se tornar um problema crescente que n\u00e3o podemos controlar&#8221;, ressalta Jaime Escobar Junior, prefeito de Roma.<br \/>\nEm tr\u00eas noites, jornalistas da AFP viram centenas de imigrantes cruzarem o rio a bordo de barcos a remo. A maioria \u00e9 oriunda de Honduras, Guatemala e El Salvador, tentando escapar da pobreza e da viol\u00eancia.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/i3X5Xe-aAcpSBA9Na6PCndpjcKc=\/0x0:4000x2711\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2021\/e\/J\/v8iB2mTTCJcJp5AbADqQ\/000-9769y4.jpg\" alt=\"Vista a\u00e9rea de Roma, no Texas, cidade na fronteira entre EUA e M\u00e9xico \u2014 Foto: Ed Jones\/AFP\" \/><\/p>\n<p>Fam\u00edlias e menores entregam-se \u00e0 Patrulha de Fronteira (CBP) na chegada e s\u00e3o presos. Ao contr\u00e1rio do governo de Donald Trump que deportava os menores, o de Joe Biden tenta reuni-los com parentes que j\u00e1 est\u00e3o no pa\u00eds. Algumas fam\u00edlias pedir\u00e3o asilo e poder\u00e3o aguardar a audi\u00eancia em liberdade. Outras ser\u00e3o expulsas. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 migrantes adultos que chegam sozinhos e tentam fugir do CBP. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil \u2014 h\u00e1 uma forte presen\u00e7a das for\u00e7as da ordem em Roma e nos arredores. Biden garante que a fronteira n\u00e3o est\u00e1 aberta e que todos os adultos capturados sem documentos ser\u00e3o deportados.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/wFweCa8zQ_FkqppFTZf3rA_HXFs=\/0x0:6048x4024\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2021\/g\/k\/EqseFERk2UHLBuH8ZPDQ\/000-9769xp.jpg\" alt=\"Policiais det\u00eam grupo que tentou cruzar a fronteira EUA-M\u00e9xico em 27 de mar\u00e7o em Roma (Texas) \u2014 Foto: Ed Jones\/AFP\" \/><\/p>\n<p>Em fevereiro, quase 100 mil imigrantes sem documentos foram detidos na fronteira com o M\u00e9xico, um retorno aos n\u00fameros de meados de 2019, desde a desacelera\u00e7\u00e3o por causa da pandemia da Covid-19. Para Dina Garc\u00eda Pe\u00f1a, fundadora do jornal local El Tejano, &#8220;n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m aqui que n\u00e3o compreenda a luta por uma vida melhor&#8221;. &#8220;Muitos de n\u00f3s viemos do M\u00e9xico. Meu pai n\u00e3o tinha documentos. Deixamos \u00e1gua do lado de fora em caso de emerg\u00eancia, nunca negamos o telefone a ningu\u00e9m&#8221;, mas &#8220;estamos vendo grupos muito grandes, 400 pessoas&#8221;, observa.<\/p>\n<p><strong>Um muro incompleto<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;O governo tem que fazer alguma coisa com essas pessoas, elas est\u00e3o procurando um lugar para morar, mas s\u00e3o muitas&#8221;, explica Tony Sandoval, de 67 anos, vestindo jeans e chap\u00e9u. \u00c0s vezes, ele d\u00e1 comida para os imigrantes, mas fica zangado porque a cerca ao redor de sua fazenda nos arredores de Roma \u00e9 com frequ\u00eancia quebrada. Ao apontar para uma parte incompleta do muro de fronteira \u2014 constru\u00edda em ferro avermelhado entre as planta\u00e7\u00f5es de sorgo e algod\u00e3o, um projeto emblem\u00e1tico de Trump \u2014 admite que gostaria que estivesse terminada.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/VDiyY1u_HCELSFjuMl3-lJhvrVM=\/0x0:5821x3873\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2021\/s\/o\/BfWJpRTAql2NlBAESAnA\/000-9769xn.jpg\" alt=\"Tony Sandoval, fazendeiro que vive em Roma (Texas), observa muro que separa EUA do M\u00e9xico em 27 de mar\u00e7o \u2014 Foto: Ed Jones\/AFP\" \/><\/p>\n<p>Biden, que est\u00e1 tentando reverter as pol\u00edticas anti-imigra\u00e7\u00e3o de seu antecessor, congelou esse trabalho ao assumir o cargo h\u00e1 dois meses. O pastor Luis Silva, do Centro Bethel Mission, tamb\u00e9m a favor do muro, recebe os imigrantes na beira do rio, d\u00e1 \u00e1gua e os acompanha at\u00e9 o CBP. No bolso, carrega sua Smith and Wesson de 9mm. &#8220;Tem que haver uma maneira de impedir isso. Quase fui atacado em minha casa&#8221; por um hondurenho, relata. &#8220;\u00c9 bem o Velho Oeste por aqui. Temos que cuidar de nosso povo&#8221;, finaliza. Mas para Noel Benavides, dono da JC Ram\u00edrez, uma loja de botas e chap\u00e9us do Texas fundada em Roma h\u00e1 quase 200 anos, a parede parece &#8220;a coisa mais rid\u00edcula j\u00e1 vista&#8221; e &#8220;um desperd\u00edcio de dinheiro&#8221;.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/SFmaca3n9hUn4aDvkZHT691m6Y4=\/0x0:4000x3000\/1008x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2021\/S\/T\/bcPiPQTpK0vp3o7oApJA\/000-9769wj.jpg\" alt=\"Muro na fronteira entre EUA e M\u00e9xico, na cidade de Roma (Texas) \u2014 Foto: Ed Jones\/AFP\" \/><\/p>\n<p>Benavides teve que vender o terreno que possu\u00eda em frente ao rio para a constru\u00e7\u00e3o da fronteira pelo governo Trump. &#8220;(Isso) n\u00e3o vai par\u00e1-los. Voc\u00ea constr\u00f3i uma parede de cinco metros, eles v\u00e3o conseguir uma escada de seis&#8221;, opina esse homem de 78 anos com um bigode grosso. Sua fam\u00edlia mora no local h\u00e1 oito gera\u00e7\u00f5es, quando o Texas ainda pertencia ao M\u00e9xico e o Rio Grande ainda n\u00e3o era a fronteira bilateral. &#8220;N\u00f3s n\u00e3o cruzamos o rio, o rio nos cruzou&#8221;, conta com um sorriso. Alguns parentes permaneceram no lado mexicano. &#8220;Agora h\u00e1 imigrantes vindos de todas as partes do mundo&#8221;, observa Benavides. &#8220;Os EUA sempre foram um caldeir\u00e3o de culturas. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para n\u00e3o recebermos essas pessoas que querem trabalhar&#8221;. \/\/ AFP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 meia-noite e a campainha toca na casa de Silvia, uma professora da pequena comunidade hist\u00f3rica de Roma, no Texas. Quem chama \u00e9 uma jovem que est\u00e1 encharcada e implora por ajuda. Silvia mora em frente ao caminho arenoso que centenas de migrantes sem documentos passam assim que cruzam o Rio Grande e desembarcam nos Estados Unidos. Como os 11 mil habitantes desta cidade no Vale do Rio Grande, na fronteira entre os Estados Unidos e o M\u00e9xico, convive com imigrantes sem documentos h\u00e1 d\u00e9cadas. 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