{"id":48355,"date":"2021-05-26T10:04:28","date_gmt":"2021-05-26T14:04:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=48355"},"modified":"2021-05-26T10:04:58","modified_gmt":"2021-05-26T14:04:58","slug":"fuga-de-talentos-do-brasil-aos-eua-e-a-maior-em-10-anos-saida-de-medicos-tem-boom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2021\/05\/26\/fuga-de-talentos-do-brasil-aos-eua-e-a-maior-em-10-anos-saida-de-medicos-tem-boom\/","title":{"rendered":"Fuga de talentos do Brasil aos EUA \u00e9 a maior em 10 anos. Sa\u00edda de m\u00e9dicos tem &#8216;boom&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00cdndice \u00e9 o maior em uma d\u00e9cada e permiss\u00e3o tem contemplado profissionais de sa\u00fade, que citam desgaste da pandemia e das condi\u00e7\u00f5es de trabalho. &#8216;Pa\u00eds convida os bons profissionais a se retirarem&#8217;, diz m\u00e9dico<\/strong><\/p>\n<p>O casal de m\u00e9dicos Raquel e Diego Laurentino Lima, de 32 e 36 anos, estava na linha de frente do combate \u00e0 covid-19 no Pa\u00eds. Emergencista, ela cuidou de dezenas de pacientes, 12 horas por dia no hospital, quase sem descanso. J\u00e1 ele, cirurgi\u00e3o, conduziu estudos sobre a doen\u00e7a. Em agosto, Lima aproveitou uma oferta de trabalho e os dois resolveram que era hora de ir morar em Nova York: &#8220;A pandemia deixou claro que o Brasil, por tudo que est\u00e1 passando, convida os bons profissionais a se retirarem&#8221;.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 maior crise sanit\u00e1ria do s\u00e9culo, o Brasil tem testemunhado um boom na sa\u00edda de profissionais de sa\u00fade para os Estados Unidos. Assim como o casal Lima, a maioria vai em busca de valoriza\u00e7\u00e3o profissional, melhor remunera\u00e7\u00e3o e investimentos em pesquisas. \u00c9 o que indicam relatos de outros trabalhadores da \u00e1rea e dados migrat\u00f3rios do Departamento de Estado americano.<\/p>\n<p>Segundo o relat\u00f3rio fiscal de 2020, os Estados Unidos registraram alta de 36% nos vistos de perman\u00eancia concedidos a brasileiros em uma categoria espec\u00edfica, o EB2, voltada para os chamados &#8220;profissionais excepcionais&#8221;. Especialistas explicam que esse \u00e9 o tipo mais comum requisitado por m\u00e9dicos, enfermeiros ou fisioterapeutas \u2013 mas a categoria tamb\u00e9m inclui outras \u00e1reas deficit\u00e1rias nos Estados Unidos, como avia\u00e7\u00e3o ou engenharia.<\/p>\n<p>Em n\u00fameros absolutos, 1.899 &#8220;profissionais excepcionais&#8221;\u00a0deixaram o Pa\u00eds de forma definitiva no ano passado, o maior \u00edndice em pelo menos uma d\u00e9cada. A estat\u00edstica inclui tanto novos vistos concedidos quanto ajustes de status \u2013 ou seja, casos de pessoas que entraram no pa\u00eds com autoriza\u00e7\u00e3o de outra natureza, mas conseguiram trocar depois.<\/p>\n<p>Esse aumento contrasta com a queda de 48%, praticamente um corte pela metade, nas emiss\u00f5es de vistos, em geral, pelo governo americano em 2020. Por causa da pandemia, os Estados Unidos suspenderam algumas atividades nos consulados, o que interrompeu parte dos processos.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/img.estadao.com.br\/resources\/jpg\/0\/8\/1621907666180.jpg\" \/><\/p>\n<p>&#8220;S\u00f3 consegui embarcar porque, como minhas pesquisas s\u00e3o relacionadas \u00e0 covid, fui considerado prioridade&#8221;, relata Lima, que deu entrada para obter o EB2. Segundo conta, ele j\u00e1 vinha pensando em morar fora e at\u00e9 fez est\u00e1gios no Jap\u00e3o e Estados Unidos antes. &#8220;Tive ainda mais certeza da decis\u00e3o quando vi a forma que o Brasil enfrentou a pandemia. Somos um dos \u00fanicos pa\u00edses do mundo a ficar insistindo em coisas sem respaldo cient\u00edfico, como cloroquina.&#8221;<\/p>\n<p>Para Lima, tamb\u00e9m pesaram as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e qualidade de vida. &#8220;No Brasil, o m\u00e9dico pode at\u00e9 ganhar dinheiro, mas n\u00e3o tem tempo de aproveitar. Aqui, os contratos s\u00e3o de U$ 200 mil, U$ 300 mil (R$ 1 milh\u00e3o a R$ 1,6 milh\u00e3o) por ano e o ambiente \u00e9 muito melhor&#8221;, afirma. &#8220;Isso tem atra\u00eddo tantos colegas que, entre os brasileiros, a gente brinca que &#8216;virou modinha&#8217;\u00a0vir para os Estados Unidos&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Limite<\/strong><\/p>\n<p>Em paralelo aos relat\u00f3rios oficiais, a assessoria D4U USA, especializada em imigra\u00e7\u00e3o legal, relata ter observado, no ano passado, alta de 30% considerando apenas profissionais de sa\u00fade \u00e0 procura de visto de resid\u00eancia nos Estados Unidos. &#8220;O volume aumentou bastante, mas n\u00e3o s\u00f3 pela pandemia. \u00c9 a situa\u00e7\u00e3o do Brasil, como um todo&#8221;, diz o CEO da empresa, Wagner Pontes. &#8220;Quando a gente senta com o cliente, a maioria fala que chegou ao limite.&#8221;<\/p>\n<p>Pontes explica que a tend\u00eancia, apesar de mais acentuada agora, j\u00e1 vinha sendo percebida desde o fim de 2016, quando o governo americano flexibilizou regras e encurtou o processo para o EB2. Antes, o visto levava cerca de 36 meses para sair. Hoje, pode ser obtido em menos de um ano. &#8220;Em termos de legisla\u00e7\u00e3o, n\u00e3o houve mudan\u00e7as na pandemia: o que mudou foi a percep\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos profissionais de sa\u00fade, que passaram a ter \u00eaxito maior nesse pleito&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>O especialista tamb\u00e9m analisa que esse aumento deve ficar ainda mais claro nos relat\u00f3rios oficiais seguintes. &#8220;A partir de mar\u00e7o de 2020, praticamente n\u00e3o houve entrevista consular, ent\u00e3o muitos processos ficaram amarrados&#8221;, diz. &#8220;Existe uma demanda represada que deve entrar nos pr\u00f3ximos anos fiscais. S\u00f3 aqui no escrit\u00f3rio, s\u00e3o centenas.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da dentista Mariana Antunes, de 38 anos, que atua no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) no Brasil, aplicou o visto no ano passado e aguarda alguns tr\u00e2mites para se mudar de vez. &#8220;Passei um ano nos Estados Unidos, em 2018, e o que mais me deixou feliz foi a seguran\u00e7a de poder caminhar na rua sem medo&#8221;, descreve.<\/p>\n<p>Segundo relata, a escolha dela \u00e9 anterior \u00e0 pandemia, mas o cen\u00e1rio atual tem feito outros colegas tomarem a mesma decis\u00e3o. &#8220;A situa\u00e7\u00e3o que a gente v\u00ea no Brasil \u00e9 complicada, principalmente na \u00e1rea da sa\u00fade. Os profissionais est\u00e3o cansados, muitos \u00e0 base de rem\u00e9dio. Ningu\u00e9m consegue ver uma sa\u00edda r\u00e1pida.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Procura<\/strong><\/p>\n<p>Para exercer a profiss\u00e3o nos Estados Unidos, o imigrante tamb\u00e9m precisa validar o diploma e cumprir uma s\u00e9rie de etapas burocr\u00e1ticas. Um dos empecilhos \u00e9 o alto custo de todo o processo, com provas que custam U$ 900 (R$ 4,7 mil), cada uma. N\u00e3o raro, o investimento ultrapassa o patamar de R$ 100 mil.<\/p>\n<p>Com experi\u00eancia em UTI e centro cir\u00fargico, a enfermeira Nat\u00e1lia Marques, de 36 anos, mora h\u00e1 cinco anos nos Estados Unidos, com o marido e o filho. &#8220;Estou no processo de recebimento do visto de trabalho e j\u00e1 tenho licen\u00e7a para atuar em Nova York&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Nat\u00e1lia avalia, no entanto, que a espera vale a pena. &#8220;No Brasil, cheguei a trabalhar 36 horas seguidas e, muitas vezes, o sal\u00e1rio pago n\u00e3o \u00e9 o justo&#8221;, diz. &#8220;Como tenho experi\u00eancia em setores com muita demanda nos Estados Unidos, a procura \u00e9 muito grande. S\u00f3 no Linkedin, recebo umas 30 notifica\u00e7\u00f5es di\u00e1rias.&#8221;<\/p>\n<p>J\u00e1 a fisioterapeuta Elisangela Ishida fez carreira em cl\u00ednicas do interior de S\u00e3o Paulo, mas trocou de pa\u00eds em 2019. &#8220;Apesar de eu ter conseguido uma ascens\u00e3o e at\u00e9 ser remunerada acima da m\u00e9dia, \u00e9 percept\u00edvel que a profiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o valorizada no Brasil&#8221;, afirma. &#8220;Nos Estados Unidos, a pessoa consegue validar o diploma em um dia e est\u00e1 empregada no outro.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Tr\u00eas perguntas para\u2026 C\u00e9sar Eduardo Fernandes, presidente da Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Brasileira<\/strong><\/p>\n<p><strong>01. Dados migrat\u00f3rios indicam crescimento da evas\u00e3o de profissionais de sa\u00fade para os Estados Unidos, em meio \u00e0 pandemia de coronav\u00edrus. Quais os principais impactos para o Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma enorme preocupa\u00e7\u00e3o. Com certeza, estamos falando de profissionais da mais alta qualidade e extremamente valiosos principalmente neste momento terr\u00edvel. A covid n\u00e3o se encerra com a alta hospitalar. H\u00e1 muitas sequelas, \u00e0s vezes de longo prazo, que precisam de programas de fisioterapia, de fonoaudiologia, e ainda assim estamos perdendo esses profissionais para o exterior. A pergunta que temos de fazer \u00e9: por qu\u00ea? A pandemia escancarou as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho no Brasil, principalmente em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es estruturais, de sal\u00e1rio e de reconhecimento do empregador. Nem digo pela popula\u00e7\u00e3o, que os tratam como her\u00f3is. Mas esse reconhecimento n\u00e3o se estende aos gestores de sa\u00fade, p\u00fablicos ou privados, com ilhas de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>02. A escassez de profissionais de sa\u00fade no Brasil j\u00e1 \u00e9 um dos problemas que afeta, por exemplo, a expans\u00e3o de leitos de UTI. H\u00e1 outras \u00e1reas no enfrentamento \u00e0 covid diretamente impactadas por esse cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea trouxe o exemplo mais emblem\u00e1tico. Toda hora, se v\u00ea not\u00edcia de algum lugar que vai aumentar os leitos de UTI, como se isso fosse poss\u00edvel da noite para o dia. Precisa de recurso humano, de m\u00e9dicos intensivistas, especializados. S\u00e3o, no m\u00ednimo, tr\u00eas anos de forma\u00e7\u00e3o em um programa regular de resid\u00eancia m\u00e9dica. Em situa\u00e7\u00e3o de excepcionalidade, \u00e9 claro que voc\u00ea pode pegar um profissional da \u00e1rea de urg\u00eancia, por exemplo, e adaptar. Mas isso n\u00e3o vai funcionar com qualquer especialidade.<\/p>\n<p><strong>03. Quais estrat\u00e9gias devem ser adotadas para garantir a seguran\u00e7a dos quadros profissionais no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que vamos ter de fazer uma reformula\u00e7\u00e3o geral. O empregador precisa valorizar seus funcion\u00e1rios: o m\u00e9dico, o fisioterapeuta, o maqueiro, a pessoa da limpeza, a escritur\u00e1ria, a assistente social. A sa\u00fade \u00e9 subfinanciada e mal gerenciada. O SUS \u00e9 uma conquista da popula\u00e7\u00e3o brasileira, \u00e9 fant\u00e1stico, mas temos de trat\u00e1-lo com o cuidado que ele merece. Tem de ter plano de carreira, como no Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o da pandemia n\u00e3o \u00e9 boa no Brasil. Os m\u00e9dicos est\u00e3o muito desalentados, tamb\u00e9m porque parte da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 entendendo a gravidade. Acabar com o negacionismo tem muita import\u00e2ncia. Os profissionais est\u00e3o preocupados com o excesso de trabalho e com a possibilidade de a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se manter aderente \u00e0s medidas necess\u00e1rias. Causa um certo des\u00e2nimo. O m\u00e9dico chega em casa, vai assistir o jornal e percebe que o comportamento das pessoas n\u00e3o est\u00e1 alinhado com o que ele v\u00ea nas UTIs dos hospitais.<\/p>\n<p><strong>Tipos de greencard por trabalho<\/strong><\/p>\n<p><strong>EB1:<\/strong> Normalmente, \u00e9 pleiteado por \u201ctrabalhadores extraordin\u00e1rios\u201d. No grupo est\u00e3o profissionais de notoriedade, com reconhecimento nacional ou internacional, como escritores de best-seller, pesquisadores premiados ou palestrantes de sucesso.<br \/>\n<strong>EB2:<\/strong> Visto de resid\u00eancia permanente destinado a profissionais \u201cexcepcionais\u201d. Na categoria de segunda prioridade, entram trabalhadores com experi\u00eancia \u201cacima da m\u00e9dia\u201d ou de \u00e1reas deficit\u00e1rias nos Estados Unidos.<br \/>\n<strong>EB3:<\/strong> Voltado para profissionais com menos experi\u00eancia. O processo depende de um empregador americano que aceite contrat\u00e1-lo.<br \/>\n<strong>EB4:<\/strong> Categoria que atende imigrantes com enfoque em trabalhos religiosos.<br \/>\n<strong>EB5:<\/strong> Voltado para investidores.<\/p>\n<p>\/\/ Fonte: Estad\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00cdndice \u00e9 o maior em uma d\u00e9cada e permiss\u00e3o tem contemplado profissionais de sa\u00fade, que citam desgaste da pandemia e das condi\u00e7\u00f5es de trabalho. &#8216;Pa\u00eds convida os bons profissionais a se retirarem&#8217;, diz m\u00e9dico O casal de m\u00e9dicos Raquel e Diego Laurentino Lima, de 32 e 36 anos, estava na linha de frente do combate \u00e0 covid-19 no Pa\u00eds. Emergencista, ela cuidou de dezenas de pacientes, 12 horas por dia no hospital, quase sem descanso. J\u00e1 ele, cirurgi\u00e3o, conduziu estudos sobre a doen\u00e7a. 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