{"id":49682,"date":"2021-09-28T17:22:13","date_gmt":"2021-09-28T21:22:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=49682"},"modified":"2021-09-28T17:22:13","modified_gmt":"2021-09-28T21:22:13","slug":"migracao-de-brasileiros-para-eua-via-mexico-aumenta-65-vezes-em-um-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2021\/09\/28\/migracao-de-brasileiros-para-eua-via-mexico-aumenta-65-vezes-em-um-ano\/","title":{"rendered":"Migra\u00e7\u00e3o de brasileiros para EUA via M\u00e9xico aumenta 6,5 vezes em um ano"},"content":{"rendered":"<p><strong>H\u00e1 seis meses, a porteira Sabrina Maria dos Santos Gon\u00e7alves, 42, espera todos os dias por not\u00edcias da filha, a operadora de telemarketing Raiane Samira dos Santos, 23, que desapareceu com o marido, Daniel Mour\u00e3o Almeida, 31, ao tentar atravessar a fronteira do M\u00e9xico com os Estados Unidos. \u201cA gente ainda tem esperan\u00e7as de receber uma liga\u00e7\u00e3o dela\u201d, diz Sabrina \u00e0 CNN.<\/strong><\/p>\n<p>O \u00faltimo contato do casal com a fam\u00edlia foi no dia 12 de mar\u00e7o, quando os dois fizeram uma chamada de v\u00eddeo de um hotel da cidade mexicana de Tijuana. A liga\u00e7\u00e3o foi pouco antes que eles pegassem um barco, com outras oito pessoas, para cruzar a fronteira durante a noite.<\/p>\n<div style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/sites\/12\/2021\/09\/daniel-raiane-2.jpeg?w=1024\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"768\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Daniel e Raiane pagariam cerca de R$ 100 mil cada um para que coiotes fizessem a travessia para os EUA \/ Arquivo pessoal<\/p><\/div>\n<p>\u201cEu j\u00e1 perdi uns 15 kg desde esse dia. A gente s\u00f3 quer uma resposta\u201d, afirma a m\u00e3e, que mora em Ribeir\u00e3o Preto, no interior de S\u00e3o Paulo. Daniel e Raiane n\u00e3o foram os \u00fanicos brasileiros a se arriscar na travessia do M\u00e9xico para os Estados Unidos neste ano. No \u00faltimo dia 15, agentes encontraram o corpo da t\u00e9cnica de enfermagem Lenilda dos Santos, 49, no deserto de Deming, no estado norte-americano do Novo M\u00e9xico. Proveniente de Rond\u00f4nia, ela morreu ao ser abandonada, sem \u00e1gua e comida, pelo grupo que cruzava para os Estados Unidos a p\u00e9. Na semana passada, brasileiros foram encontrados na boleia de um caminh\u00e3o ao lado de imigrantes do Equador, El Salvador, Honduras, Guatemala, M\u00e9xico e Peru. Ao todo, 49 pessoas foram detidas na regi\u00e3o de Sierra Blanca, no Texas.<\/p>\n<p><strong>Mais de 46 mil brasileiros deportados<\/strong><\/p>\n<p>A Alf\u00e2ndega e Prote\u00e7\u00e3o de Fronteiras dos EUA (US Customs and Border Protection) informou \u00e0 CNN que o n\u00famero de brasileiros que tentaram entrar de forma ilegal no pa\u00eds cresceu 6,5 vezes no \u00faltimo ano. Entre outubro de 2020 e setembro de 2021, 46.410 imigrantes do Brasil foram deportados contra 7.161 no per\u00edodo anterior. A maioria dos brasileiros tentou entrar pelas fronteiras do Arizona (28.538) e da Calif\u00f3rnia (14.266). Mais da metade viajava em fam\u00edlia (34.636) e h\u00e1 registro de cinco menores detidos pela imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO aumento de deporta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o apenas de brasileiros, \u00e9 reflexo de uma combina\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios fatores. Muitas pessoas pensaram que, depois do governo [de Donald] Trump, ficaria mais f\u00e1cil cruzar a fronteira e pedir asilo, o que n\u00e3o aconteceu\u201d, explica Jason De Le\u00f3n, presidente do Colibr\u00ed Center for Human Rights, uma organiza\u00e7\u00e3o que atua na busca pelos desaparecidos na regi\u00e3o. Na semana passada, o governo de Joe Biden realizou a deporta\u00e7\u00e3o em massa de milhares de haitianos que tentavam atrasar para os Estados Unidos. \u201cMuitos imigrantes chegam fugindo da viol\u00eancia, de eventos clim\u00e1ticos e por conta das consequ\u00eancias da pandemia de Covid-19, que teve impactos sanit\u00e1rios e econ\u00f4micos\u201d, afirma De Le\u00f3n.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/sites\/12\/2021\/09\/Arte-migrantes-brasileiros-2.jpg?w=806\" \/><\/p>\n<p><strong>Sonho americano<\/strong><\/p>\n<p>Daniel e Raiane tentaram entrar legalmente nos Estados Unidos, mas tiveram o visto negado duas vezes pelas autoridades do pa\u00eds. Foi a\u00ed que decidiram pagar coiotes (bandidos que providenciam a travessia ilegal) para cruzar a fronteira pelo M\u00e9xico. \u201cEles queriam trabalhar, ter uma vida melhor. Venderam tudo o que tinham e pediram demiss\u00e3o\u201d, conta a m\u00e3e. Em Ribeir\u00e3o Preto, Raiane era operadora de telemarketing e Daniel trabalhava em uma distribuidora de \u00f3leos lubrificantes. Cada um pagaria cerca de R$ 100 mil para os coiotes pela viagem.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, os dois embarcaram em um voo para a Cidade do M\u00e9xico, onde chegaram no dia 11 de fevereiro. De l\u00e1, pegaram um avi\u00e3o para Ensenada, no estado mexicano da Baixa Calif\u00f3rnia. Ali, foram recebidos por coiotes que os levaram de carro at\u00e9 Tijuana, cidade a 100 km de dist\u00e2ncia, j\u00e1 na fronteira com os Estados Unidos. O plano era atravessar, pelo mar, para San Diego, j\u00e1 nos Estados Unidos, e de l\u00e1 viajar at\u00e9 o estado de Massachusetts, onde Daniel tem familiares. \u201cEles passaram um m\u00eas em Tijuana, tentaram atravessar tr\u00eas vezes, mas em todas elas precisaram voltar. Uma vez o barco quebrou, outra eles estavam sem r\u00e1dio de comunica\u00e7\u00e3o e, na terceira, apareceram drones da pol\u00edcia\u201d, conta Sabrina. Na quarta tentativa, ligaram para a fam\u00edlia \u00e0s 4h37 para avisar que o fariam outra vez. No Brasil, Sabrina ouviu a voz ansiosa da filha e desejou boa sorte para os dois. Acordou no meio da noite, fez suas ora\u00e7\u00f5es e, sem not\u00edcias, chegou a pensar que tinha dado tudo certo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-49047\" src=\"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/casal-brasileiros-desaparecidos-eua-mexico.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"438\" srcset=\"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/casal-brasileiros-desaparecidos-eua-mexico.jpg 700w, https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/casal-brasileiros-desaparecidos-eua-mexico-300x188.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 me falaram para esquecer, que o barco afundou e eles morreram, mas eu n\u00e3o acredito. Como afundou se n\u00e3o tem barco, se n\u00e3o tem corpo? A minha filha pode ter sido sequestrada para a prostitui\u00e7\u00e3o\u201d, diz Sabrina. Distante quase 10 mil quil\u00f4metros de onde os dois sumiram e sem saber falar ingl\u00eas ou espanhol, ela usa um tradutor online para acessar grupos em redes sociais e vasculhar sites de not\u00edcias em busca de pistas sobre o paradeiro dos dois. \u201cEu tenho f\u00e9 de que a minha filha est\u00e1 viva\u201d, diz. Sabrina procurou o Itamaraty e a Pol\u00edcia Federal, no Brasil, e o retorno foi que os \u00f3rg\u00e3os n\u00e3o t\u00eam not\u00edcias do paradeiro do casal. \u00c0 CNN, o Itamaraty disse que acompanha o caso e est\u00e1 em contato com as autoridades competentes do M\u00e9xico e dos Estados Unidos e que est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para prestar toda a assist\u00eancia cab\u00edvel aos familiares. A CNN procurou o Instituto Nacional de Imigra\u00e7\u00e3o e a Secretaria de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do governo mexicano, mas n\u00e3o teve resposta.<\/p>\n<p><strong>Agulha no palheiro<\/strong><\/p>\n<p>Autoridades locais estimam que cerca de 8.000 pessoas estejam desaparecidas entre o M\u00e9xico e os Estados Unidos. Para organiza\u00e7\u00f5es que atuam na fronteira, esse n\u00famero pode ser entre tr\u00eas e sete vezes maior. \u201cA situa\u00e7\u00e3o piorou muito depois do 11 de setembro, quando as pol\u00edticas de imigra\u00e7\u00e3o ficaram mais restritas. Desde ent\u00e3o, os imigrantes passaram a utilizar rotas mais perigosas para fugir da fiscaliza\u00e7\u00e3o\u201d, explica Jason De Le\u00f3n, da Colibr\u00ed. \u201cO alto n\u00famero de mortos e desaparecidos \u00e9 resultado da pol\u00edtica repressiva dos Estados Unidos, que trata essas pessoas como criminosas e se esquece que somos um pa\u00eds constru\u00eddo por imigrantes\u201d, afirma Bob Feinman, vice-presidente da Human Borders, outra organiza\u00e7\u00e3o que atua na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A fronteira entre os dois pa\u00edses tem mais de 2.500 km de extens\u00e3o, com montanhas, rio, mar e deserto, o que dificulta a travessia e a busca pelos desaparecidos. A falta de registros institucionais e a aus\u00eancia de compartilhamento de dados entre os dois pa\u00edses tornam a procura ainda mais complicada. \u201cO primeiro que perguntamos \u00e9 se as fam\u00edlias sabem se a pessoa chegou a entrar nos Estados Unidos ou n\u00e3o, para ter uma ideia de onde come\u00e7ar a buscar\u201d, diz Isabella Fassi, que trabalha nos canais de atendimento do Colibr\u00ed Center for Human Rights. Na organiza\u00e7\u00e3o, o primeiro passo \u00e9 trocar informa\u00e7\u00f5es com organiza\u00e7\u00f5es locais que fazem buscas na regi\u00e3o onde a pessoa desapareceu. Eles tamb\u00e9m cruzam as informa\u00e7\u00f5es de caracter\u00edsticas f\u00edsicas da pessoa com os bancos de dados dispon\u00edveis. Do lado dos Estados Unidos, n\u00e3o h\u00e1 um \u00f3rg\u00e3o que se dedique \u00e0 procura dos desaparecidos e os dados mais precisos s\u00e3o das deporta\u00e7\u00f5es. No M\u00e9xico, h\u00e1 o problema com os cart\u00e9is de tr\u00e1ficos de drogas e armas, que al\u00e9m de controlar a travessia ilegal na fronteira, sequestram imigrantes para o trabalho for\u00e7ado. \u201cNingu\u00e9m entra no territ\u00f3rio dos cart\u00e9is sem pagar imposto, ningu\u00e9m cruza para os Estados Unidos sem autoriza\u00e7\u00e3o deles\u201d, diz Isabella Fassi. Soma-se a isso o fato de que cada estado possui ferramentas pr\u00f3prias para registros dos corpos e testes de DNA. \u201cA ang\u00fastia \u00e9 t\u00e3o grande que muitas fam\u00edlias acabam publicando dados e n\u00fameros pessoais na internet, e viram alvos de extors\u00e3o\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>Itamaraty: \u2018n\u00e3o h\u00e1 dados precisos\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Em nota, o Itamaraty disse que n\u00e3o h\u00e1 dados precisos sobre o n\u00famero de brasileiros que cruzam ilegalmente a fronteira sul dos Estados Unidos. \u201cOs fatores que influenciam esses fluxos migrat\u00f3rios s\u00e3o complexos e contemplam aspectos diversos \u2013 por exemplo, de ordem socioecon\u00f4mica, cultural e mesmo pessoais \u2013 que requerem observa\u00e7\u00e3o de casos espec\u00edficos\u201d, dizem. Em caso de desaparecimento na fronteira entre M\u00e9xico e Estados Unidos, organiza\u00e7\u00f5es civis que atuam na regi\u00e3o e o Itamaraty dizem que o primeiro passo deve ser a comunica\u00e7\u00e3o ao consulado. \u201cBuscamos obter o m\u00e1ximo de detalhes sobre as circunst\u00e2ncias em que a pessoa sumiu, bem como dados pessoais para permitir sua identifica\u00e7\u00e3o. Os postos consulares notificam as autoridades imigrat\u00f3rias e policiais locais, como o Servi\u00e7o de Aduanas e Prote\u00e7\u00e3o Fronteiri\u00e7a (CBP) e o Servi\u00e7o de Controle de Imigra\u00e7\u00e3o e Aduanas (ICE), nos Estados Unidos, e o Instituto Nacional de Migraci\u00f3n (INM), no M\u00e9xico, al\u00e9m da adid\u00e2ncia da Pol\u00edcia Federal lotada nos postos brasileiros\u201d, disse em nota. No in\u00edcio do m\u00eas, a Pol\u00edcia Federal brasileira identificou uma quadrilha de coiotes que atuava na regi\u00e3o de Governador Valadares, no leste de Minas Gerais. N\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00e3o se eles intermediaram a travessia de Daniel e Raiane. Segundo a pol\u00edcia, ningu\u00e9m foi preso, mas a Justi\u00e7a determinou o bloqueio de R$ 11 milh\u00f5es em bens dos investigados. \/\/ CNN Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 seis meses, a porteira Sabrina Maria dos Santos Gon\u00e7alves, 42, espera todos os dias por not\u00edcias da filha, a operadora de telemarketing Raiane Samira dos Santos, 23, que desapareceu com o marido, Daniel Mour\u00e3o Almeida, 31, ao tentar atravessar a fronteira do M\u00e9xico com os Estados Unidos. \u201cA gente ainda tem esperan\u00e7as de receber uma liga\u00e7\u00e3o dela\u201d, diz Sabrina \u00e0 CNN. O \u00faltimo contato do casal com a fam\u00edlia foi no dia 12 de mar\u00e7o, quando os dois fizeram uma chamada de v\u00eddeo de um hotel da cidade mexicana de Tijuana. 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