{"id":49972,"date":"2021-10-27T10:03:58","date_gmt":"2021-10-27T14:03:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=49972"},"modified":"2021-10-27T10:03:58","modified_gmt":"2021-10-27T14:03:58","slug":"deportacao-de-brasileiros-dos-eua-dispara-e-ja-e-mais-que-o-dobro-dos-ultimos-tres-anos-somados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2021\/10\/27\/deportacao-de-brasileiros-dos-eua-dispara-e-ja-e-mais-que-o-dobro-dos-ultimos-tres-anos-somados\/","title":{"rendered":"Deporta\u00e7\u00e3o de brasileiros dos EUA dispara e j\u00e1 \u00e9 mais que o dobro dos \u00faltimos tr\u00eas anos somados"},"content":{"rendered":"<p><strong>Quando deixou Minas Gerais no in\u00edcio deste ano, Leo, de 23 anos, tinha um plano: tentar uma vida melhor nos Estados Unidos, como muitos de seus conterr\u00e2neos. Mas na \u00faltima sexta-feira, 22, ele voltou ao Brasil em um voo no qual passou boa parte do tempo algemado nos p\u00e9s, m\u00e3os e cintura ap\u00f3s sete meses de um pesadelo americano, em que ficou o tempo todo detido em uma cadeia.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cNos colocaram em pris\u00f5es de alta seguran\u00e7a e nos devolveram ao nosso pa\u00eds algemados. Eu, que sempre fui saud\u00e1vel, voltei tomando cinco antidepressivos e tive alopecia, metade do meu cabelo caiu. Foram sete meses de agonia e terror\u201d, explicou ele \u00e0 reportagem, assim que saiu no sagu\u00e3o do aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins. Veio num voo fretado, junto com outros brasileiros deportados ap\u00f3s cruzarem a fronteira entre o M\u00e9xico e os Estados Unidos.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/szsA3PpHg9KLHWt9vIJ0QLgtEds=\/1960x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/ABBXFBOMZNGOFEUWXZX5ULXHOI.jpeg\" \/><\/p>\n<p>Voos como este se tornaram frequentes na cidade desde que em outubro de 2019 a medida come\u00e7ou a ser implementada pelo Governo Donald Trump. Eles chegam uma vez por semana. Em agosto deste ano, j\u00e1 sob o governo democrata de Joe Biden, os EUA pediram a amplia\u00e7\u00e3o para dois voos, e a expectativa de Washington \u00e9 conseguir enviar ao pa\u00eds tr\u00eas avi\u00f5es semanais com deportados brasileiros. \u00c9 o reflexo do aumento exponencial do n\u00famero de brasileiros deportados ap\u00f3s cruzarem a fronteira mexicana. Dados obtidos pelo EL PA\u00cdS apontam que nos \u00faltimos 12 meses o n\u00famero de brasileiros detidos nesta situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 mais do que o dobro do registrado nos tr\u00eas anos anteriores somados.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros s\u00e3o da U.S. Customs and Border Protection (CBP) ou Servi\u00e7o de Alf\u00e2ndega e Prote\u00e7\u00e3o das Fronteiras, em portugu\u00eas, \u00f3rg\u00e3o dos EUA respons\u00e1vel pelo patrulhamento das divisas e apreens\u00e3o de imigrantes ilegais. No per\u00edodo que constitui o ano fiscal americano, que vai de outubro de 2020 a setembro de 2021, 56.881 brasileiros foram detidos ap\u00f3s cruzarem a p\u00e9 a fronteira com o M\u00e9xico. No ano fiscal de 2020 haviam sido 7.161, por aparente impacto da pandemia. Um ano antes, em 2019, foram 17.893, um salto significativo em rela\u00e7\u00e3o a 2018, quando foram registrados 1.504. S\u00e3o pessoas de diversas idades e origens que buscam atravessar a extensa fronteira por mar, pelo deserto ou se entregando na imigra\u00e7\u00e3o norte-americana para pleitear um pedido de asilo.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/83N2BR7EbCZLgqlriRH0NoycPG4=\/1960x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/JOEOAM5QQRGCXMX7EJIO5VWSOI.jpg\" \/><\/p>\n<p>O \u00eaxodo de brasileiros em busca de oportunidades de trabalho nos \u00faltimos tr\u00eas anos se junta ao movimento de outros povos latino-americanos, que levaram os EUA a uma das maiores crises migrat\u00f3rias da hist\u00f3ria. H\u00e1 uma aumento recorde no n\u00famero de pessoas que tentam entrar no pa\u00eds pela fronteira mexicana \u2014o maior dos \u00faltimos 20 anos, de acordo com o secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a Interna, Alejandro Mayorkas. A crise fez o democrata Biden, que durante a campanha fez cr\u00edticas ao seu antecessor pela desumanidade no tratamento aos imigrantes, seguir a mesma linha. As imagens dram\u00e1ticas de imigrantes haitianos sendo la\u00e7ados, no m\u00eas passado, por guardas de fronteira montados a cavalo rodaram o mundo.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o brasileira tamb\u00e9m preocupa as autoridades mexicanas. Este m\u00eas o Governo do presidente Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador anunciou que em breve ser\u00e1 retomada a exig\u00eancia de visto de entrada para turistas brasileiros no pa\u00eds. Desde 2004, as duas na\u00e7\u00f5es possuem um acordo pelo qual bastava a apresenta\u00e7\u00e3o do passaporte para garantir o acesso. Ainda n\u00e3o existe uma data para que a restri\u00e7\u00e3o entre em vigor \u2014o projeto est\u00e1 em fase de consultas. De acordo com o texto apresentado, a medida ser\u00e1 tempor\u00e1ria, e ter\u00e1 como objetivo impedir a entrada de viajantes \u201ccujo perfil n\u00e3o corresponde ao do visitante ou turista genu\u00edno\u201d. Ainda segundo a legisla\u00e7\u00e3o, alguns brasileiros \u201capresentam inconsist\u00eancias em sua documenta\u00e7\u00e3o (&#8230;) o que refor\u00e7a a possibilidade de que um n\u00famero significativo de pessoas pretende usar a isen\u00e7\u00e3o de visto de forma indevida\u201d.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de L\u00e9o, que passou sete meses preso nos EUA, n\u00e3o \u00e9 in\u00e9dita em sua cidade natal, Governador Valadares (MG), apelidada de Valad\u00f3lares pela massiva quantidade de habitantes que moram nos Estados Unidos e enviam remessas da moeda americana de l\u00e1 para seus familiares. Ele seguiu um roteiro que se repete aos milhares: foi a Mexicali, pegou um t\u00e1xi at\u00e9 a fronteira com o Arizona, nos Estados Unidos, e pagou 300 d\u00f3lares a um coiote (respons\u00e1vel pela travessia ilegal) para ajud\u00e1-lo a chegar aos Estados Unidos. \u201cMe enganaram, disseram que eu ia passar tr\u00eas dias na fronteira e estaria dentro\u201d, conta ele, que acabou pego. \u201cN\u00e3o me deixaram tentar asilo, n\u00e3o passei por entrevista, s\u00f3 me disseram que estava negado. Se o processo \u00e9 r\u00e1pido, se sabem que v\u00e3o deportar, deporta logo, n\u00e3o precisa prender por sete meses. Agora que estou no Brasil eu quero meu churrasco, ver minha fam\u00edlia e n\u00e3o vou voltar para l\u00e1 t\u00e3o cedo.\u201d<\/p>\n<p>Nas dezenas de voos que j\u00e1 aterrissaram em Belo Horizonte trazendo os deportados brasileiros, a cena se repete. Eles desembarcam atordoados, com seus poucos pertences guardados em sacos de batata. Muitas vezes est\u00e3o longe de casa e n\u00e3o sabem como voltar\u00e3o para suas cidades de origem \u2014todos os voos chegam na capital mineira, mas trazem pessoas de diversos Estados. Pedro, 21 anos, atravessou a fronteira com a esposa e o filho de apenas um ano. Ap\u00f3s o question\u00e1rio de pedido de asilo nos EUA, ela foi aprovada, ele foi recusado. \u201cEu sa\u00ed daqui procurando um futuro melhor para mim, para minha esposa e o meu filho. Minha vida estava dif\u00edcil, n\u00f3s dois desempregados. Desde que a gente se entregou na fronteira eu n\u00e3o tive contato com eles, fiquei tr\u00eas meses preso e s\u00f3 falei com eles na quinta passada, uma semana antes de vir embora. Nestes tr\u00eas meses em que fiquei detido, perdi 10 quilos. Foi muito humilhante\u201d, relata ele. \u201cMas eu vou voltar. Minha fam\u00edlia est\u00e1 l\u00e1, eu vou fazer a mesma coisa de novo. Vou tentar at\u00e9 eu morrer ou at\u00e9 eu entrar.\u201d<\/p>\n<p>A frustra\u00e7\u00e3o de se separar da fam\u00edlia tamb\u00e9m \u00e9 uma marca comum entre os deportados. Caio tentou entrar nos EUA com a esposa e, assim como Pedro, acabou reprovado ap\u00f3s ver a companheira ser aprovada na entrevista. \u201cEu sa\u00ed [do Brasil] pelo que todo mundo sai: tentar uma vida melhor, realizar meus sonhos\u201d, conta. Ele seguiu o passo a passo b\u00e1sico para quem quer cruzar a fronteira: \u201cFui pelo M\u00e9xico. Primeiro fui preso l\u00e1 com minha esposa. Passei fome, assediaram minha mulher na pris\u00e3o. Mandaram a gente de volta para a Cidade do M\u00e9xico, a\u00ed voltamos para Mexicali, nos entregamos \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos\u201d. Durante a entrevista para poss\u00edvel concess\u00e3o de asilo, Caio foi indagado se j\u00e1 sofreu \u201ctortura ou algum tipo de persegui\u00e7\u00e3o religiosa, pol\u00edtica, essas coisas\u201d. \u201cN\u00e3o passei [na entrevista]: fiquei preso, sofri press\u00e3o psicol\u00f3gica, meu cunhado morreu enquanto eu estava preso. Fiquei l\u00e1 por cinco meses e me mandaram embora.\u201d<\/p>\n<p>Os funcion\u00e1rios do aeroporto j\u00e1 est\u00e3o habituados a receber os deportados, que chegam famintos, desolados e precisam restabelecer o contato com a liberdade. Muitos desembarcam aos prantos, como J\u00e9ssica, que passou quase uma hora chorando no telefone. \u201cEu n\u00e3o cometi nenhum crime al\u00e9m de tentar entrar no pa\u00eds deles para ter as m\u00e3os, os p\u00e9s e a cintura acorrentados. Foi um desespero. Eu tenho vontade de ir pros Estados Unidos desde crian\u00e7a e a crise s\u00f3 fez aumentar este desejo\u201d, conta. J\u00e9ssica era estudante de zootecnia, mas decidiu abandonar os estudos em nome do sonho. Pegou um avi\u00e3o e foi para o M\u00e9xico. \u201cNo aeroporto os pr\u00f3prios taxistas sabem onde te levar. Eu me entreguei [nos EUA], fiz entrevista, fui negada, paguei um advogado e apelei, mas o juiz n\u00e3o aceitou. Fiquei 55 dias l\u00e1, na pris\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/Z400kUxlRC0IiX_tU7vjEiy4yLs=\/1960x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/OHWMEXLMAJH2XH5F5OGW3ZMF6I.jpg\" \/><\/p>\n<p>A rotina atr\u00e1s das grades marcou a jovem: \u201cA gente ficava presa o dia inteiro, a comida era servida na cela e \u00e9 uma comida que eu n\u00e3o daria nem para um porco. A \u00e1gua \u00e9 a da pia da cela, onde a gente lava o rosto, as m\u00e3os e escova os dentes. Eu dividia cela com uma pessoa s\u00f3, e como a cela era fechada tinha que fazer as necessidades na frente da outra pessoa\u201d. Durante o per\u00edodo de deten\u00e7\u00e3o, uma \u00faltima esperan\u00e7a chegou a cruzar sua cabe\u00e7a: \u201cNa hora de voltar eu achei que tinha sido aprovada, porque \u00e0s vezes a pessoa \u00e9 negada e do nada aprovam, n\u00e3o tem uma regra. Mas infelizmente era para volta\u201d, lamenta. \u201cAgora eu vou esperar meu pai me mandar dinheiro para eu ir para a casa. Moro em Rond\u00f4nia. Se eu n\u00e3o tivesse ele, n\u00e3o sei o que faria porque te mandam pra uma cidade aleat\u00f3ria e voc\u00ea que se vire.\u201d<\/p>\n<p>O aumento no n\u00famero de brasileiros que tentam entrar ilegalmente pela fronteira mexicana j\u00e1 fez ao menos uma v\u00edtima fatal. Em setembro as autoridades americanas encontraram o corpo da t\u00e9cnica de enfermagem Lenilda Oliveira dos Santos, 49, em um deserto pr\u00f3ximo \u00e0 cidade de Deming, no Novo M\u00e9xico. Ela havia cruzado a fronteira com tr\u00eas amigos dias antes, guiados por um coiote mexicano. Durante a travessia ela n\u00e3o aguentou mais caminhar e foi abandonada \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Foi localizada j\u00e1 sem vida uma semana depois de ter mandado mensagens para a fam\u00edlia em Vale do Para\u00edso, Rond\u00f4nia. Ela deixou duas filhas. \/\/ Fonte: El Pais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando deixou Minas Gerais no in\u00edcio deste ano, Leo, de 23 anos, tinha um plano: tentar uma vida melhor nos Estados Unidos, como muitos de seus conterr\u00e2neos. Mas na \u00faltima sexta-feira, 22, ele voltou ao Brasil em um voo no qual passou boa parte do tempo algemado nos p\u00e9s, m\u00e3os e cintura ap\u00f3s sete meses de um pesadelo americano, em que ficou o tempo todo detido em uma cadeia. \u201cNos colocaram em pris\u00f5es de alta seguran\u00e7a e nos devolveram ao nosso pa\u00eds algemados. Eu, que sempre fui saud\u00e1vel, voltei tomando cinco antidepressivos e tive alopecia, metade do meu cabelo caiu. 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