{"id":50580,"date":"2021-12-28T14:06:47","date_gmt":"2021-12-28T18:06:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=50580"},"modified":"2021-12-28T14:06:47","modified_gmt":"2021-12-28T18:06:47","slug":"brasileiros-deportados-dos-eua-relatam-humilhacao-racismo-e-maus-tratos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2021\/12\/28\/brasileiros-deportados-dos-eua-relatam-humilhacao-racismo-e-maus-tratos\/","title":{"rendered":"Brasileiros deportados dos EUA relatam humilha\u00e7\u00e3o, racismo e maus-tratos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Brasileiros deportados dos Estados Unidos relatam humilha\u00e7\u00e3o, racismo e maus-tratos sofridos durante as tentativas de entrar no pa\u00eds. Hist\u00f3rias de abusos s\u00e3o recorrentes entre migrantes mantidos em centros de deten\u00e7\u00e3o ap\u00f3s verem frustrada a passagem atrav\u00e9s da fronteira com o M\u00e9xico.<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Eles [agentes de seguran\u00e7a] tratam a gente mal, [com] falta de educa\u00e7\u00e3o, agridem verbalmente porque n\u00e3o podem encostar na gente. Eu n\u00e3o entendia muito bem o que diziam, mas o tempo todo eles gritavam &#8216;fuck you, shit'&#8221;, contou \u00e0 Folha o agricultor Andr\u00e9 Luiz Pereira do Vale, 19. Hoje ele mora na comunidade rural de C\u00f3rrego do Dourado, em Tarumirim (MG). O munic\u00edpio fica no entorno de Governador Valadares, no leste mineiro, marcado historicamente pela migra\u00e7\u00e3o para os EUA.<\/p>\n<p>Na \u00faltima semana, a Folha mostrou que brasileiros dessa regi\u00e3o arriscam a vida na travessia pelo M\u00e9xico e contrabandistas alugam crian\u00e7as por US$ 3.000 para facilitar a entrada ilegal. O jovem de Tarumirim j\u00e1 teve oito irm\u00e3os vivendo nos EUA ap\u00f3s essa jornada pela fronteira sul. Ele tamb\u00e9m tentou entrar no pa\u00eds em abril deste ano, mas o plano deu errado quando se entregou a autoridades americanas e teve negado o pedido de asilo. Vale contou que os problemas come\u00e7aram j\u00e1 na fase de triagem, quando dormiu no ch\u00e3o e passou frio. Ele ficou seis meses em um centro de deten\u00e7\u00e3o no Mississippi. Os momentos mais traum\u00e1ticos de que se recorda s\u00e3o desse per\u00edodo e o fizeram desistir definitivamente de uma nova tentativa de mudar de pa\u00eds.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2021\/12\/25\/164047581161c7aca3846f1_1640475811_3x2_md.jpg\" alt=\"Melissa de Carvalho, 19, tentou entrar nos EUA, mas foi deportada; ela ficou detida no Arizona e disse que n\u00e3o recebeu tratamento digno na cela\" \/><\/p>\n<p>Segundo o relato de Vale, as agress\u00f5es verbais dos agentes de seguran\u00e7a eram frequentes. O agricultor reclamou ainda das refei\u00e7\u00f5es, servidas com excesso de pimenta. Diante das ofensas e dos constrangimentos, ele recorreu \u00e0 f\u00e9. Cat\u00f3lico, passou a fazer prega\u00e7\u00f5es para brasileiros, haitianos e venezuelanos. &#8220;Foi Deus que me ajudou e me sustentou. Eu sempre tive minha f\u00e9, mas eu n\u00e3o conhecia Deus como conheci l\u00e1&#8221;, afirmou. Vale \u00e9 um entre tantos brasileiros deportados semanalmente em voos fretados pelo governo americano que chegam ao aeroporto de Confins (MG). Segundo dados da Pol\u00edcia Federal, foram 1.304 brasileiros em 2020 e 2021.<\/p>\n<p>O terminal foi escolhido para o desembarque porque 70% dos que voltam s\u00e3o de Minas Gerais. A palavra humilha\u00e7\u00e3o foi a mais citada em relatos colhidos pela Folha. A embaixada dos EUA, em nota, afirmou que todas as institui\u00e7\u00f5es governamentais est\u00e3o comprometidas com o tratamento respeitoso. &#8220;Estamos preocupados com o sofrimento humano que essas perigosas viagens trazem \u00e0queles que as fazem, especialmente para menores. Tentar entrar ilegalmente nos EUA cria mais problemas do que resolve&#8221;, disse a assessoria de imprensa da representa\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica. A estudante Melissa de Carvalho, 19, foi detida e encaminhada para o estado do Arizona. Ela disse que n\u00e3o recebeu tratamento digno na cela, que estava superlotada.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2021\/12\/25\/164047604661c7ad8e47578_1640476046_3x2_md.jpg\" alt=\"Jhonatan Nogueira da Silva, 35, no aeroporto de Confins (MG); ele foi deportado e chegou ao Brasil com os pertences dentro de um saco laranja\" \/><\/p>\n<p>&#8220;Os deboches eram muito com o olhar, cutucavam a gente, olhavam para roupa, t\u00eanis. Debocharam do meu cabelo. Havia meninas que a menstrua\u00e7\u00e3o corria pelas pernas e as agentes riam, controlavam at\u00e9 o papel higi\u00eanico&#8221;, disse. Carvalho mora em Serra (ES) e foi em agosto aos EUA para se encontrar com a fam\u00edlia que a aguardava. Ela estava acompanhada do irm\u00e3o na travessia, mas s\u00f3 ele conseguiu entrar. Ela foi mandada de volta ao Brasil no m\u00eas passado. Segundo a PF, o perfil dos deportados, na maioria das vezes, \u00e9 masculino, com idade de 18 a 25 anos e que j\u00e1 tentou entrar ilegalmente antes nos EUA. Predominantemente, os aspirantes declaram ser estudantes, trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil e do com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>O cozinheiro Jhonatan Nogueira da Silva, 35, \u00e9 um dos reincidentes. Ele viveu por oito anos nos Estados Unidos, de 2000 a 2008, e tamb\u00e9m tentou entrar de forma irregular em 2019. Silva relatou xingamentos e atitudes racistas por parte de agentes. &#8220;Alguns abusam da autoridade, s\u00e3o bem racistas, n\u00e3o gostam de imigrante, falam, zombam, fazem cr\u00edticas, principalmente a quem n\u00e3o fala ingl\u00eas&#8221;, disse. Ao chegar ao Brasil em novembro, carregava um saco de cor laranja, entregue pelas autoridades americanas, com seus pertences. Silva se disse indignado por ter sido algemado no voo de deportados. Vale, Carvalho e Silva s\u00e3o un\u00e2nimes nas cr\u00edticas ao uso das algemas, uma vez que dizem nunca terem cometido um crime. No entanto, a pr\u00e1tica de algemas os deportados \u00e9 uma pol\u00edtica habitual dos EUA durante o voo. A restri\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 retirada quando o avi\u00e3o aterrissa em solo brasileiro.<\/p>\n<p>Segundo Jo\u00e3o Francisco Campos da Silva Pereira, chefe da Divis\u00e3o de Assist\u00eancia Consular do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, a dispensa do uso de algemas em voos de deporta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das principais reivindica\u00e7\u00f5es do Itamaraty e da Pol\u00edcia Federal. Um dos argumentos, diz Pereira, \u00e9 que a maioria das pessoas detidas n\u00e3o \u00e9 criminosa. Apesar dos migrantes entrarem no pa\u00eds de forma irregular, a migra\u00e7\u00e3o por si s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 crime. As autoridades brasileiras tamb\u00e9m j\u00e1 pediram que parentes n\u00e3o sejam separados na deporta\u00e7\u00e3o e que brasileiros com problemas de sa\u00fade s\u00f3 embarquem se estiverem em condi\u00e7\u00f5es de viajar ap\u00f3s receberem tratamento m\u00e9dico nos EUA.<\/p>\n<p>A contrapartida do Itamaraty e da PF foi a autoriza\u00e7\u00e3o dada ao governo Joe Biden para enviar dois voos de deportados por semana. Segundo as autoridades brasileiras, os americanos tentam negociar um terceiro voo. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s queixas dos brasileiros, Pereira disse que o Itamaraty n\u00e3o tem conhecimento de todos os problemas relatados porque, na maioria das vezes, os migrantes n\u00e3o procuram \u00f3rg\u00e3os oficiais. Pereira explicou que o papel do minist\u00e9rio \u00e9 zelar para que os brasileiros recebam tratamento digno. No entanto, segundo ele, \u00e9 importante que a den\u00fancia seja formalizada para que a pasta possa pedir explica\u00e7\u00f5es oficiais \u00e0s autoridades americanas. &#8220;O que a gente percebe \u00e9 que muitos brasileiros t\u00eam medo de ir ao consulado, de procurar nossa ajuda, porque acham justamente que a gente vai denunciar para as autoridades locais, seja nos Estados Unidos, Jap\u00e3o, Portugal, Fran\u00e7a&#8221;, disse Pereira. &#8220;A gente n\u00e3o faz isso. A nossa obriga\u00e7\u00e3o \u00e9 atender, acolher o brasileiro e prestar a assist\u00eancia m\u00ednima cab\u00edvel que a gente consegue&#8221;, afirmou. A orienta\u00e7\u00e3o de n\u00e3o contar os problemas \u00e0s autoridades parte de contrabandistas e coiotes. Segundo relatos de deportados, ao entrarem nos Estados Unidos eles recebem orienta\u00e7\u00f5es sobre como e com quem devem falar. Para solicitar asilo \u00e0s autoridades americanas, por exemplo, uma das diretrizes \u00e9 dizer que est\u00e3o sob amea\u00e7a de morte no Brasil ou que foram torturados por agentes do governo, como policiais e pol\u00edticos. \/\/ Folha Online.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brasileiros deportados dos Estados Unidos relatam humilha\u00e7\u00e3o, racismo e maus-tratos sofridos durante as tentativas de entrar no pa\u00eds. Hist\u00f3rias de abusos s\u00e3o recorrentes entre migrantes mantidos em centros de deten\u00e7\u00e3o ap\u00f3s verem frustrada a passagem atrav\u00e9s da fronteira com o M\u00e9xico. &#8220;Eles [agentes de seguran\u00e7a] tratam a gente mal, [com] falta de educa\u00e7\u00e3o, agridem verbalmente porque n\u00e3o podem encostar na gente. Eu n\u00e3o entendia muito bem o que diziam, mas o tempo todo eles gritavam &#8216;fuck you, shit&#8217;&#8221;, contou \u00e0 Folha o agricultor Andr\u00e9 Luiz Pereira do Vale, 19. Hoje ele mora na comunidade rural de C\u00f3rrego do Dourado, em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":50581,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[4,3,1],"tags":[],"views":1746,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50580"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50580"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50580\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":50582,"href":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50580\/revisions\/50582"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/50581"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50580"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50580"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50580"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}