{"id":58136,"date":"2024-07-07T13:01:08","date_gmt":"2024-07-07T17:01:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=58136"},"modified":"2024-07-07T13:01:08","modified_gmt":"2024-07-07T17:01:08","slug":"tratam-como-cachorro-amarrado-na-corrente-brasileiros-deportados-relatam-experiencia-de-imigracao-para-os-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2024\/07\/07\/tratam-como-cachorro-amarrado-na-corrente-brasileiros-deportados-relatam-experiencia-de-imigracao-para-os-eua\/","title":{"rendered":"&#8220;Tratam como cachorro amarrado na corrente&#8221;: Brasileiros deportados relatam experi\u00eancia de imigra\u00e7\u00e3o para os EUA"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00c0s 19h02 da \u00faltima sexta-feira de junho, mais um avi\u00e3o com brasileiros deportados dos Estados Unidos pousava no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins, na Regi\u00e3o Metropolitana. Em torno de 50 minutos depois, os passageiros, vestidos de roupas brancas, com sapatos pretos nos p\u00e9s e um saco nas m\u00e3os, cruzavam a \u00e1rea de desembarque.<\/strong><\/p>\n<p>Em 2024, ano em que a imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 um tema central na elei\u00e7\u00e3o presidencial dos Estados unidos (leia mais abaixo), 516 brasileiros j\u00e1 foram deportados do pa\u00eds, segundo a Pol\u00edcia Federal, todos por Confins. De acordo com a concession\u00e1ria BH Airport, seis voos com deportados pousaram no aeroporto neste ano.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/UkevMKQAq2NZq_wY5u4ARE8LAtY=\/0x0:650x1096\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2024\/5\/u\/qvCHahS56D1PA1q01ACA\/040724-rota-da-deportacao-1-.png\" alt=\"Aeroporto Internacional de Belo Horizonte recebeu seis voos com deportados neste ano, segundo a BH Airport \u2014 Foto: g1\" \/><\/p>\n<p>Alguns imigrantes passavam direto, com o passo apressado. Outros vasculhavam o terminal \u00e0 procura de uma tomada para recarregar o celular, e parte buscava um aparelho emprestado para avisar a fam\u00edlia que tinha chegado com seguran\u00e7a. O plano de alguns era comprar uma passagem, ainda naquela noite, para a cidade de origem, em diferentes partes do Brasil. Outros n\u00e3o tinham sequer um centavo no bolso. O g1 conversou com tr\u00eas pessoas, deportadas por imigra\u00e7\u00e3o ilegal, que n\u00e3o quiseram se identificar. Mais do que a frustra\u00e7\u00e3o pela deporta\u00e7\u00e3o, elas tinham em comum o sentimento de al\u00edvio por estar de volta ao Brasil ap\u00f3s meses de deten\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio norte-americano. &#8220;Te tratam como se fosse um cachorro amarrado na corrente&#8221;, disse um dos imigrantes. O g1 questionou a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil sobre as declara\u00e7\u00f5es dos deportados, mas n\u00e3o obteve retorno at\u00e9 a \u00faltima atualiza\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Passei de pris\u00e3o em pris\u00e3o&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>Um homem de 34 anos, que nasceu em Umba\u00faba (SE), retornava ao Brasil depois de dez anos nos Estados Unidos. Ele entrou no pa\u00eds com visto de turista e permaneceu de forma ilegal ap\u00f3s o documento perder a validade. Trabalhava com constru\u00e7\u00e3o, ganhando de US$ 800 a US$ 900 por semana, em Kentucky, at\u00e9 que, um dia, foi parado pela pol\u00edcia quando estava dirigindo.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/G47Y0a6ac5a5M6xghbmHvMj3q8Q=\/0x0:4032x3024\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2024\/5\/u\/KItwWcRk26duvrSxBkEA\/img-3270-1-.jpg\" alt=\"Brasileiro deportado dos EUA carrega celular para falar com a fam\u00edlia ap\u00f3s desembarcar em Confins \u2014 Foto: Rafaela Mansur\/ g1\" \/><\/p>\n<p>&#8220;Passei por um processo na Justi\u00e7a, coloquei advogado, mas n\u00e3o consegui. Passei de pris\u00e3o em pris\u00e3o, fiquei quatro meses preso. Foi muito dif\u00edcil. Eu nunca estive preso no meu pa\u00eds de origem para ficar preso em outro pa\u00eds&#8221;, disse. O sergipano circulou por deten\u00e7\u00f5es em quatro estados diferentes \u2013 apenas em uma podia ligar para a fam\u00edlia. Nas outras, passava os dias sem dar e receber not\u00edcias. &#8220;Minha fam\u00edlia estava aterrorizada, minha m\u00e3e, meus parentes, minha avozinha, todos estavam bem tristes, minha m\u00e3e tinha dia que n\u00e3o dormia&#8221;, contou. No per\u00edodo em que ficou nos Estados Unidos, o brasileiro se casou com uma cubana e teve um filho, que hoje tem 2 anos. Ele planejava voltar para Sergipe e trazer a fam\u00edlia para o Brasil. Voltar aos Estados Unidos, s\u00f3 legalmente.<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o aconselho ningu\u00e9m a ir para l\u00e1 ilegal. A vida de imigrante \u00e9 muito dif\u00edcil, porque voc\u00ea tem que ficar se escondendo. Tem trabalho, ganha bem, mas tem que estar se escondendo, n\u00e3o tem vida, a verdade \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o tem vida, porque s\u00f3 trabalha. Para conseguir um dinheiro tem que trabalhar de domingo a domingo e, no restante do tempo, tem que ficar em casa, porque, se voc\u00ea sair, pode ser arriscado. Eu, gra\u00e7as a Deus, n\u00e3o quero voltar&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Te tratam como se fosse cachorro&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>Um mineiro de 24 anos, de Frei Lagonegro, no Vale do Rio Doce, foi deportado pela segunda vez. Na primeira tentativa, em abril de 2023, conseguiu entrar nos Estados Unidos, apresentou-se para a imigra\u00e7\u00e3o e acabou sendo mandado de volta para o Brasil, dois meses depois. Em dezembro, tentou novamente, com os irm\u00e3os, em busca de uma &#8220;oportunidade de vida melhor&#8221;. Ele fez a travessia de Juarez, no M\u00e9xico, para El Paso, no Texas, dentro de um vag\u00e3o de trem de carga, em um esquema organizado por coiotes. &#8220;Passei muito sufoco no M\u00e9xico. Tentaram me sequestrar, corrup\u00e7\u00e3o demais, tem que ficar pagando tudo, correndo risco de vida o tempo todo. Cada viagem \u00e9 uma viagem, as minhas duas foram muito complicadas. Eu fiquei espremido no trem, em um espacinho que n\u00e3o dava 20 cm, durante oito horas. Estava entre a vida e a morte ali&#8221;, contou.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/H8qRT7TkALAtV_qvZoJl6uN7Ay8=\/0x0:2364x1112\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2024\/g\/k\/QviCivS2moim4axdM36A\/design-sem-nome-17-.png\" alt=\"Brasileiros deportados dos EUA chegam em Confins com pertences em um saco \u2014 Foto: Rafaela Mansur\/ g1\" \/><\/p>\n<p>Quando ainda estava no trem, na fronteira entre M\u00e9xico e Estados Unidos, o jovem foi pego \u2013 os irm\u00e3os conseguiram entrar. Ele ficou dois dias algemado e, em seis meses, passou por seis centros de deten\u00e7\u00e3o. &#8220;Dependendo da imigra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deixam voc\u00ea dormir, te prendem, te soltam. Tem algumas que s\u00f3 pode sair no sol uma vez por semana. A comida \u00e9 muito ruim, te alimentam na hora que querem. Eu sa\u00ed daqui gordinho, estou voltando s\u00f3 o osso, perdi uns 10 kg. Alguns oficiais s\u00e3o tranquilos, t\u00eam cora\u00e7\u00e3o, mas a maioria maltrata demais. Te tratam como se fosse um cachorro amarrado na corrente. Tem que pegar muito com Deus para vir embora r\u00e1pido&#8221;, relatou. De volta ao Brasil, o jovem quer voltar a trabalhar como serrador, perto da fam\u00edlia. &#8220;Isso para mim se tornou uma droga psicol\u00f3gica, porque voc\u00ea vai uma vez, vai outra, depois vai outra, e sua vida vai embora. Voc\u00ea perde tempo com sua fam\u00edlia, perde oportunidade de conquistar as coisas aqui. Quero recome\u00e7ar minha vida. Como meus irm\u00e3os conseguiram, eu fico satisfeito, posso recome\u00e7ar minha vida aqui&#8221;.<\/p>\n<p><strong>&#8216;N\u00e3o quero voltar&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>Uma das poucas mulheres entre o grupo de deportados queria tentar a vida nos Estados Unidos ap\u00f3s ter sido v\u00edtima de viol\u00eancia dom\u00e9stica em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce. Ela entrou no pa\u00eds pelo mar, de jet ski, em mar\u00e7o deste ano. Foram quatro dias de tentativas \u2013 nos tr\u00eas primeiros, agentes da imigra\u00e7\u00e3o estavam na fronteira, e ela teve que retornar para o M\u00e9xico.<\/p>\n<p>&#8220;Eu ca\u00ed dentro do mar, estou viva pela gl\u00f3ria de Deus. O mar estava muito violento, tive que nadar, passei muito frio&#8221;, contou. No quarto dia, ela, o coiote e outra imigrante que estavam na moto aqu\u00e1tica conseguiram chegar a San Diego, na Calif\u00f3rnia. Eles se esconderam, entraram em um carro e, cinco minutos depois, foram capturados pela imigra\u00e7\u00e3o. A mineira, de 26 anos, passou tr\u00eas meses detida. &#8220;Era todo dia a mesma coisa: caf\u00e9 da manh\u00e3, \u00e0s 5h30, almo\u00e7o, \u00e0s 11h30, e jantar, \u00e0s 17h30. Cada habita\u00e7\u00e3o tinha oito pessoas, tinha tablet, cobertor, \u00e1gua quente. N\u00e3o tenho nada a reclamar em quest\u00e3o de m\u00e9dico, s\u00f3 que, em quest\u00e3o de tratamento, n\u00e3o era bom. Gritavam assim: &#8216;Desse jeito voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o entrar no meu pa\u00eds'&#8221;, contou. A valadarense, que tem fam\u00edlia nos Estados Unidos, j\u00e1 tinha sido deportada do pa\u00eds outra vez. &#8220;Agora, n\u00e3o sei como v\u00e3o ser as coisas. Por agora, n\u00e3o quero voltar. N\u00e3o sei futuramente&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Deporta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A deporta\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo de remo\u00e7\u00e3o de imigrantes irregulares ou de imigrantes regulares que tenham cometido crime. De acordo com a advogada Paula Infante, especialista em direito internacional, atualmente, os brasileiros que entram ilegalmente nos Estados Unidos geralmente se apresentam aos agentes de imigra\u00e7\u00e3o, para que possam entrar com pedido de asilo. &#8220;No governo Biden, tem tido mais flexibilidade, e muitas pessoas t\u00eam sido liberadas, com tornozeleira eletr\u00f4nica, desde que informem o endere\u00e7o aonde v\u00e3o ficar. \u00c9 muito dif\u00edcil para brasileiros terem o asilo concedido, porque o Brasil n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds em guerra ou com persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas, na maioria das vezes, o pedido demora anos para ser finalizado e, nesse tempo, a pessoa recebe autoriza\u00e7\u00e3o para trabalhar&#8221;, explicou a advogada.<\/p>\n<p>Segundo ela, na maioria dos casos, como os brasileiros n\u00e3o conseguem comprovar a necessidade de asilo, acabam sendo deportados ao fim do processo, decidido na Justi\u00e7a. Al\u00e9m disso, conforme a especialista, em algumas situa\u00e7\u00f5es, as pessoas pegas pela imigra\u00e7\u00e3o permanecem nos centros de deten\u00e7\u00e3o e s\u00e3o deportadas sem serem liberadas em nenhum momento. De acordo com o Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, geralmente, o per\u00edodo de deten\u00e7\u00e3o varia de um a tr\u00eas meses. Nem sempre os brasileiros detidos podem ligar para os familiares, mas, em todos os casos, eles podem acionar o Consulado brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s 19h02 da \u00faltima sexta-feira de junho, mais um avi\u00e3o com brasileiros deportados dos Estados Unidos pousava no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins, na Regi\u00e3o Metropolitana. Em torno de 50 minutos depois, os passageiros, vestidos de roupas brancas, com sapatos pretos nos p\u00e9s e um saco nas m\u00e3os, cruzavam a \u00e1rea de desembarque. Em 2024, ano em que a imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 um tema central na elei\u00e7\u00e3o presidencial dos Estados unidos (leia mais abaixo), 516 brasileiros j\u00e1 foram deportados do pa\u00eds, segundo a Pol\u00edcia Federal, todos por Confins. 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