{"id":58763,"date":"2024-09-17T10:00:15","date_gmt":"2024-09-17T14:00:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=58763"},"modified":"2024-09-17T10:00:15","modified_gmt":"2024-09-17T14:00:15","slug":"custo-do-sonho-americano-a-morte-de-imigrantes-por-condicoes-extremas-de-trabalho-nos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2024\/09\/17\/custo-do-sonho-americano-a-morte-de-imigrantes-por-condicoes-extremas-de-trabalho-nos-eua\/","title":{"rendered":"Custo do &#8216;sonho americano&#8217;: A morte de imigrantes por condi\u00e7\u00f5es extremas de trabalho nos EUA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Hugo viu um amigo morrer em uma imensa planta\u00e7\u00e3o de batatas-doces em 2023. O corpo sem vida ficou deitado sobre um pneu de caminh\u00e3o, em uma das poucas \u00e1reas com sombra daquela escaldante fazenda na Carolina do Norte, nos Estados Unidos. &#8220;Eles o for\u00e7aram a trabalhar&#8221;, lembra Hugo. &#8220;Ele repetia para eles que estava se sentindo mal, que estava morrendo. E, uma hora depois, desmaiou.&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Hugo (nome fict\u00edcio) passou a maior parte do seu tempo nos Estados Unidos, trabalhando em fazendas como migrante. Nelas, os ganhos geralmente n\u00e3o ultrapassam o sal\u00e1rio m\u00ednimo e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho podem ser mortais. A BBC concordou em adotar um pseud\u00f4nimo para Hugo, devido \u00e0s suas preocupa\u00e7\u00f5es com poss\u00edveis repercuss\u00f5es da divulga\u00e7\u00e3o do incidente. Hugo saiu do M\u00e9xico em 2019, com um visto de trabalho nos Estados Unidos. Ele deixou para tr\u00e1s a esposa e dois filhos, em busca do &#8220;sonho americano&#8221;, sem saber quando \u2013 ou se \u2013 iria retornar para sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Seu amigo que morreu na fazenda de batatas-doces se chamava Jos\u00e9 Arturo Gonz\u00e1lez Mendoza. Aquela foi a primeira viagem de Mendoza para os Estados Unidos em busca de trabalho. Ele morreu nas suas primeiras semanas na fazenda, em setembro de 2023. Mendoza tinha 29 anos e tamb\u00e9m havia deixado sua esposa e filhos no M\u00e9xico. &#8220;N\u00f3s viemos aqui por necessidade&#8221;, diz Hugo. &#8220;\u00c9 o que nos faz vir para trabalhar. E voc\u00ea deixa para tr\u00e1s o que mais desejava, uma fam\u00edlia.&#8221; De agricultores e pecuaristas at\u00e9 ajudantes de cozinha e trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil, os migrantes costumam realizar trabalhos perigosos nos Estados Unidos. Nestes empregos, as mortes normalmente passam despercebidas pelo p\u00fablico. Mas, no ano passado, a quest\u00e3o ganhou visibilidade, devido \u00e0s v\u00e1rias mortes que foram noticiadas e \u00e0 crise dos migrantes na fronteira, que potencializou a ret\u00f3rica anti-imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O calor era intenso no dia da morte de Mendoza. As temperaturas variavam em torno de 32\u00b0C. N\u00e3o havia \u00e1gua pot\u00e1vel em quantidade suficiente para os trabalhadores e a fazenda permitia apenas um intervalo de cinco minutos durante os turnos de longas horas. O \u00fanico lugar para escapar do calor era um \u00f4nibus sem ar condicionado, estacionado em um campo aberto. Os detalhes se encontram em um relat\u00f3rio preparado pelo Departamento do Trabalho da Carolina do Norte. A fazenda, chamada Barnes Farming Corporation, foi multada este ano devido \u00e0s suas condi\u00e7\u00f5es &#8220;perigosas&#8221;. O relat\u00f3rio confirmou a morte ocorrida na fazenda e mencionou que a chefia &#8220;nunca&#8221; chamou a assist\u00eancia m\u00e9dica, nem forneceu primeiros socorros. Nas horas que antecederam sua morte, Mendoza &#8220;ficou confuso, demonstrou dificuldade para andar, falar e respirar, at\u00e9 perder a consci\u00eancia&#8221;, afirma o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Outro trabalhador da fazenda chegou a chamar os servi\u00e7os de emerg\u00eancia, segundo o relat\u00f3rio, mas Mendoza teve uma parada card\u00edaca e morreu antes da chegada da assist\u00eancia m\u00e9dica. Em declara\u00e7\u00e3o encaminhada \u00e0 BBC, representantes legais afirmaram que a fazenda leva &#8220;muito a s\u00e9rio&#8221; a sa\u00fade e a seguran\u00e7a dos seus trabalhadores. Eles contestam as conclus\u00f5es das autoridades trabalhistas. &#8220;Muitos dos membros da equipe retornam a Barnes h\u00e1 anos e voltaram novamente para esta esta\u00e7\u00e3o de cultivo, devido ao compromisso da fazenda com a sa\u00fade e a seguran\u00e7a&#8221;, afirmam eles. Mas Hugo n\u00e3o retornou. Ele conta que, agora, trabalha para uma empresa de soldagem. &#8220;Coisas ruins acontecem para muitos de n\u00f3s&#8221;, ele conta. &#8220;Sei que tamb\u00e9m poderia acontecer comigo.&#8221; O setor agr\u00edcola tamb\u00e9m tem o maior \u00edndice de mortes no ambiente de trabalho, segundo o Escrit\u00f3rio de Estat\u00edsticas Trabalhistas dos Estados Unidos. Ele \u00e9 seguido pelo transporte e pela constru\u00e7\u00e3o civil. E, no primeiro semestre do ano, diversas mortes seguidas vieram destacar alguns destes riscos.<\/p>\n<p>No final de mar\u00e7o, seis trabalhadores latino-americanos morreram em Baltimore, no Estado de Maryland, quando a ponte que eles estavam consertando durante a noite desabou. Semanas depois, um \u00f4nibus que levava trabalhadores agr\u00edcolas mexicanos para o campo sofreu um acidente na Fl\u00f3rida e oito pessoas morreram. Durante a conven\u00e7\u00e3o nacional do Partido Democrata, o governador de Maryland, Wes Moore, relembrou o incidente em Baltimore. Ele homenageou os trabalhadores que morreram &#8220;consertando buracos em uma ponte enquanto n\u00f3s dorm\u00edamos&#8221;.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/7f13\/live\/8b594c60-30d4-11ef-90be-b75b34b0bbb2.jpg.webp\" alt=\"Trabalhadores imigrantes colhem morangos durante a colheita ao sul de S\u00e3o Francisco, Calif\u00f3rnia\" \/><\/p>\n<p><strong>Trabalho de risco<\/strong><\/p>\n<p>Mendoza e Hugo tinham vistos H2A, que permitiam que eles trabalhassem temporariamente nos Estados Unidos, na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. O n\u00famero de trabalhadores estrangeiros com este tipo de visto vem aumentando. Entre 2017 e 2022, os portadores de visto H2A cresceram em 64,7% \u2013 o que representa cerca de 150 mil trabalhadores. Ao todo, cerca de 70% dos trabalhadores da agricultura nos Estados Unidos s\u00e3o estrangeiros. Deles, mais de tr\u00eas a cada quatro trabalhadores s\u00e3o de origem hisp\u00e2nica, segundo o Centro Nacional da Sa\u00fade dos Trabalhadores da Agricultura. &#8220;A imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 a principal fonte de m\u00e3o de obra para muitos empregos nos Estados Unidos&#8221;, segundo a professora de economia Chloe East, da Universidade do Colorado em Denver, nos EUA. Ela \u00e9 especializada em pol\u00edticas de imigra\u00e7\u00e3o. &#8220;Sabemos com certeza que trabalhadores estrangeiros est\u00e3o assumindo estes tipos de trabalhos perigosos que os norte-americanos n\u00e3o fazem&#8221;, disse ela.<\/p>\n<p>Uma investiga\u00e7\u00e3o federal realizada nos Estados Unidos em 2020 entre os trabalhadores agr\u00edcolas com visto H2A nos Estados da Fl\u00f3rida, Texas e Ge\u00f3rgia descreveu as condi\u00e7\u00f5es de trabalho como sendo an\u00e1logas \u00e0 &#8220;escravid\u00e3o contempor\u00e2nea&#8221;. A investiga\u00e7\u00e3o fez com que 24 pessoas fossem acusadas de tr\u00e1fico de pessoas, lavagem de dinheiro e outros crimes. &#8220;O sonho americano \u00e9 uma atra\u00e7\u00e3o poderosa para pessoas desesperadas e desfavorecidas em todo o mundo&#8221;, afirmou na \u00e9poca o procurador americano David Estes, em um comunicado \u00e0 imprensa. &#8220;E, onde h\u00e1 necessidade, existe a gan\u00e2ncia daqueles ir\u00e3o tentar explor\u00e1-las.&#8221; Especialistas afirmam que os migrantes que entram no pa\u00eds ilegalmente podem receber menos prote\u00e7\u00e3o quando s\u00e3o contratados para trabalhar. E quase a metade dos trabalhadores do setor agr\u00edcola n\u00e3o tem documentos, segundo o Centro de Estudos da Migra\u00e7\u00e3o. &#8220;Os trabalhadores imigrantes sem documentos est\u00e3o concentrados nos empregos mais perigosos, arriscados e indesejados dos Estados Unidos&#8221;, segundo um artigo publicado na Revista Internacional de Migra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/8334\/live\/7ef95310-66fe-11ef-a006-fb0775301171.jpg.webp\" alt=\"Imigrantes do M\u00e9xico, vestidos para se proteger do sol, colhem batata-doce em uma fazenda na Calif\u00f3rnia, em 26 de outubro de 2018\" \/><\/p>\n<p>Um dos empregos mais perigosos do setor agropecu\u00e1rio s\u00e3o as fazendas de latic\u00ednios. Os riscos incluem a exposi\u00e7\u00e3o excessiva a subst\u00e2ncias nocivas ou m\u00e1quinas perigosas. Os fossos de esterco trazem o risco dos gases t\u00f3xicos mortais e de submers\u00e3o. Os pr\u00f3prios animais tamb\u00e9m podem causar amea\u00e7as. Olga, que se mudou do M\u00e9xico para os Estados Unidos quando era adolescente, n\u00e3o tem documentos de imigra\u00e7\u00e3o e trabalha em uma fazenda de latic\u00ednios no Estado de Vermont. Ela conta que viu sua irm\u00e3 ser pisoteada por uma vaca quase at\u00e9 a morte. &#8220;A vaca pisou forte sobre minha irm\u00e3 e ela estava basicamente morrendo&#8221;, lembra Olga. &#8220;Ela estava at\u00e9 com a l\u00edngua para fora da boca.&#8221; Olga conta que sua irm\u00e3 quebrou um bra\u00e7o e duas costelas no incidente. Mas o chefe da fazenda exigiu que ela voltasse ao trabalho quase imediatamente. Ela precisou levar um atestado m\u00e9dico mostrando que sua irm\u00e3 n\u00e3o poderia trabalhar para que &#8220;o patr\u00e3o a deixasse sossegada&#8221;, conta Olga. Sua irm\u00e3 n\u00e3o trabalha mais nas fazendas. Mas Olga continua. Ela tem 29 anos e conta que trabalha &#8220;12 horas por dia, todos os dias&#8221;. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 aumento de sal\u00e1rio&#8221;, afirma. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 descanso e eles nem pagam voc\u00ea em dia. Eles pagam voc\u00ea quando eles querem.&#8221; No in\u00edcio do ver\u00e3o do hemisf\u00e9rio norte, o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos implementou novas regras destinadas a melhorar as condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a dos trabalhadores tempor\u00e1rios das fazendas. Estas normas incluem a prote\u00e7\u00e3o dos trabalhadores que se organizam para defender seus direitos contra retalia\u00e7\u00f5es patronais e a proibi\u00e7\u00e3o da reten\u00e7\u00e3o dos passaportes e documentos de imigra\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Mas, assim que as autoridades tentaram coibir os abusos aos imigrantes, a ret\u00f3rica anti-imigra\u00e7\u00e3o, alimentada pelos debates pol\u00edticos sobre os n\u00edveis recorde de imigra\u00e7\u00f5es ilegais na fronteira entre os Estados Unidos e o M\u00e9xico, aumentou as dificuldades dos migrantes hisp\u00e2nicos. Em diversas ocasi\u00f5es, Donald Trump se referiu \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o ilegal como uma &#8220;invas\u00e3o&#8221;, chamando as pessoas que cruzam a fronteira de &#8220;animais&#8221;, &#8220;traficantes de drogas&#8221; e &#8220;estupradores&#8221;. &#8220;Isso me deixa triste&#8221;, declarou Olga. &#8220;Estamos sendo sempre atacados por sermos migrantes. Eles deveriam ver o que fazemos para sobreviver neste pa\u00eds.&#8221; O aumento das restri\u00e7\u00f5es na fronteira, implementadas pelo presidente Joe Biden em junho, tamb\u00e9m pode agravar as condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a, segundo East. A professora destaca que as leis de imigra\u00e7\u00e3o mais rigorosas podem fazer com que os trabalhadores tenham medo de reivindicar protocolos de seguran\u00e7a. &#8220;A maioria das pessoas fica em sil\u00eancio porque se assusta com todas as leis que est\u00e3o sendo aprovadas&#8221;, afirma Hugo. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o pode se queixar.&#8221; Ele conta que, recentemente, vem observando mais discrimina\u00e7\u00e3o. Hugo lembra uma experi\u00eancia recente, em que o dono de uma loja se recusou a vender \u00e1gua para ele, porque ele tinha dificuldade para falar ingl\u00eas. &#8220;As pessoas nos tratam mal.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hugo viu um amigo morrer em uma imensa planta\u00e7\u00e3o de batatas-doces em 2023. O corpo sem vida ficou deitado sobre um pneu de caminh\u00e3o, em uma das poucas \u00e1reas com sombra daquela escaldante fazenda na Carolina do Norte, nos Estados Unidos. &#8220;Eles o for\u00e7aram a trabalhar&#8221;, lembra Hugo. &#8220;Ele repetia para eles que estava se sentindo mal, que estava morrendo. E, uma hora depois, desmaiou.&#8221; Hugo (nome fict\u00edcio) passou a maior parte do seu tempo nos Estados Unidos, trabalhando em fazendas como migrante. Nelas, os ganhos geralmente n\u00e3o ultrapassam o sal\u00e1rio m\u00ednimo e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho podem ser mortais. 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