{"id":61809,"date":"2025-12-01T19:23:46","date_gmt":"2025-12-01T23:23:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/?p=61809"},"modified":"2025-12-01T19:23:46","modified_gmt":"2025-12-01T23:23:46","slug":"por-medo-da-deportacao-brasileiras-que-sofrem-violencia-domestica-nos-eua-deixam-de-procurar-a-policia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brazilianpress.com\/v1\/2025\/12\/01\/por-medo-da-deportacao-brasileiras-que-sofrem-violencia-domestica-nos-eua-deixam-de-procurar-a-policia\/","title":{"rendered":"Por medo da deporta\u00e7\u00e3o, brasileiras que sofrem viol\u00eancia dom\u00e9stica nos EUA deixam de procurar a Pol\u00edcia"},"content":{"rendered":"<p><strong>O endurecimento das pol\u00edticas migrat\u00f3rias nos Estados Unidos criou um paradoxo cruel para mulheres brasileiras que vivem no pa\u00eds: o pedido de socorro tornou-se t\u00e3o assustador quanto a viol\u00eancia sofrida dentro de casa. Antes visto como um aliado, o sistema de prote\u00e7\u00e3o agora \u00e9 encarado com desconfian\u00e7a, transformando v\u00edtimas em ref\u00e9ns do sil\u00eancio. A amea\u00e7a de deporta\u00e7\u00e3o ou pris\u00e3o passou a ser utilizada como uma arma de controle eficaz pelos agressores, que apostam na vulnerabilidade jur\u00eddica de suas companheiras para perpetuar abusos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos impunemente.<\/strong><\/p>\n<p>Um exemplo emblem\u00e1tico dessa din\u00e2mica \u00e9 a trajet\u00f3ria de Roberta Castello Novo. O que come\u00e7ou como um conto de fadas ao lado de um americano, evoluiu rapidamente para um regime de c\u00e1rcere privado emocional e financeiro. Ap\u00f3s mudar-se para Utah, Roberta viu sua autonomia ser desmantelada: cart\u00f5es cancelados, alimenta\u00e7\u00e3o racionada e humilha\u00e7\u00f5es di\u00e1rias diante dos filhos. A virada s\u00f3 ocorreu quando ela, apoiada por terapia e pela organiza\u00e7\u00e3o HOPE Institute, conseguiu fugir na v\u00e9spera do Ano Novo de 2024, reconstruindo sua vida do zero atrav\u00e9s do empreendedorismo e do voluntariado.<\/p>\n<p>No entanto, nem todas conseguem romper o ciclo com a mesma rapidez. Segundo apurado pelo Brazilian Press, o isolamento \u00e9 agravado estrategicamente pelos parceiros, que utilizam a barreira do idioma e o desconhecimento das leis locais para aterrorizar as v\u00edtimas. Muitas mulheres acreditam que, ao discar para a emerg\u00eancia, estar\u00e3o acionando a pr\u00f3pria expuls\u00e3o do pa\u00eds. Esse cen\u00e1rio de terror psicol\u00f3gico \u00e9 confirmado por advogados e ativistas, que notam uma mudan\u00e7a no perfil das den\u00fancias: o medo n\u00e3o \u00e9 mais apenas de apanhar, mas de ser separada for\u00e7adamente da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O drama de Ana (nome fict\u00edcio) ilustra a armadilha da maternidade em solo estrangeiro. Vivendo na Fl\u00f3rida, ela enfrenta um ex-companheiro com hist\u00f3rico criminal e diagn\u00f3sticos psiqui\u00e1tricos graves, mas se v\u00ea paralisada pelo sistema legal. A cidadania americana da filha tornou-se um instrumento de chantagem: foi informada de que poderia retornar ao Brasil, mas teria de deixar a crian\u00e7a para tr\u00e1s. &#8220;Estou literalmente \u00e0 espera de um milagre&#8221;, desabafa Ana, que gasta suas economias com advogadas enquanto v\u00ea a prote\u00e7\u00e3o judicial falhar na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia, contudo, nem sempre deixa marcas vis\u00edveis na pele, o que dificulta ainda mais a decis\u00e3o de denunciar. Mariana Krasch, residente em Utah, viveu o terror logo no in\u00edcio da pandemia, quando seu marido trancou sua filha de tr\u00eas anos em um quarto escuro como forma de &#8220;educa\u00e7\u00e3o&#8221;. Embora n\u00e3o tenha havido agress\u00e3o f\u00edsica direta contra ela, a amea\u00e7a constante e o ambiente de controle foram suficientes para que ela buscasse a pol\u00edcia. Mariana teve sorte ao encontrar uma delegada emp\u00e1tica, mas ressalta a car\u00eancia de leis espec\u00edficas que protejam a mulher imigrante em disputas de guarda e pens\u00e3o.<\/p>\n<p>O reflexo desse clima de inseguran\u00e7a aparece nas estat\u00edsticas das organiza\u00e7\u00f5es de apoio, que registram um fen\u00f4meno preocupante de subnotifica\u00e7\u00e3o. Rose Newell, do Projeto Vida, relata que o n\u00famero de atendimentos despencou de cerca de 200 mulheres em anos anteriores para apenas 40 em 2024. A queda n\u00e3o indica menos viol\u00eancia, mas sim um p\u00e2nico generalizado. Rodrigo Godoi, da Mantena Global Care, refor\u00e7a que existe uma correla\u00e7\u00e3o direta entre a press\u00e3o social contra imigrantes e o aumento da viol\u00eancia dom\u00e9stica, criando uma &#8220;onda silenciosa&#8221; de abusos n\u00e3o reportados.<\/p>\n<p>Diante da hesita\u00e7\u00e3o em envolver a pol\u00edcia \u2014 passo necess\u00e1rio para vistos de prote\u00e7\u00e3o como o U Visa \u2014, advogados de imigra\u00e7\u00e3o t\u00eam orientado as v\u00edtimas a buscarem o VAWA (Violence Against Women Act). Esta legisla\u00e7\u00e3o permite a regulariza\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria sem a necessidade de boletim de ocorr\u00eancia e de forma sigilosa, sendo uma sa\u00edda vital para casos de abuso psicol\u00f3gico extremo e controle coercitivo. A advogada Fernanda Bueno destaca que muitas desistem de chamar a pol\u00edcia com medo de que o parceiro acione a imigra\u00e7\u00e3o, tornando o VAWA a principal porta de sa\u00edda.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das barreiras legais, a l\u00edngua continua sendo um muro quase intranspon\u00edvel. O HOPE Institute, que viu um aumento na demanda de den\u00fancias via formul\u00e1rios online, alerta para o risco de retraumatiza\u00e7\u00e3o quando o atendimento n\u00e3o \u00e9 feito em portugu\u00eas. Val\u00e9ria Emele, volunt\u00e1ria da organiza\u00e7\u00e3o, explica que a capacidade de se expressar na l\u00edngua materna \u00e9 fundamental para estabelecer a confian\u00e7a necess\u00e1ria para a den\u00fancia. A meta da ONG \u00e9 expandir sua atua\u00e7\u00e3o f\u00edsica at\u00e9 2026 para oferecer um acolhimento mais robusto.<\/p>\n<p>Apesar do cen\u00e1rio sombrio, a rede de solidariedade feminina resiste como o \u00faltimo basti\u00e3o de esperan\u00e7a. Iniciativas comunit\u00e1rias e coletivos em cidades como Nova York continuam a mobilizar psic\u00f3logas e advogadas para combater a desinforma\u00e7\u00e3o. Mulheres como Roberta, que transformaram sua dor em ativismo, provam que \u00e9 poss\u00edvel vencer o medo. A mensagem que tentam propagar \u00e9 urgente: a den\u00fancia continua sendo essencial, e o status migrat\u00f3rio n\u00e3o deve ser uma senten\u00e7a de submiss\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O endurecimento das pol\u00edticas migrat\u00f3rias nos Estados Unidos criou um paradoxo cruel para mulheres brasileiras que vivem no pa\u00eds: o pedido de socorro tornou-se t\u00e3o assustador quanto a viol\u00eancia sofrida dentro de casa. Antes visto como um aliado, o sistema de prote\u00e7\u00e3o agora \u00e9 encarado com desconfian\u00e7a, transformando v\u00edtimas em ref\u00e9ns do sil\u00eancio. 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