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Bons Professores, by Alessandro Lima

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Quando me deixo levar pelos pensamentos entrando nas lembranças das relações estabelecidas no período da alfabetização até a universidade, alguns professores surgem em minha mente despertando admiração, respeito, confiança, alegria e gratidão. Esses verdadeiros mestres são os que denomino de bons professores, aqueles que me ofertaram muito mais do que conhecimento, criaram o ambiente favorável ao acolhimento estabelecendo conexões em cada um de nossos encontros. Interessante que lembro não só dos seus nomes, mas de suas atuações em aulas específicas. Hoje percebo que foram essenciais para minha formação humana e motivaram minha paixão pela docência.

Conversando com outras pessoas, observo que muitas delas também guardam em suas boas recordações a figura de algum professor que tenha lhe cativado, incentivado ou motivado. Nicolas Mascret (2012) em seu livro Não vamos esquecer os bons professores (N’oublions pas les bons profs) entrevistou 150 pessoas, entre personalidades anônimas e públicas perguntando, dentre outras questões, “quais são as principais características de um bom professor?”. Para Mascret, (2012, p.16), a dificuldade de identificar o que seria um bom professor se deve as inúmeras formas de ser um bom professor, somada a diversidade de maneiras que os alunos percebem um bom professor. Acredito que isso está associado com as diversas emoções que um bom professor é capaz de despertar em seus alunos. Onde para mim pode ter gerado segurança para meu colega pode ter sido satisfação, o mais importante é que esse professor possibilitou o despertar de sentimentos diante o atendimento das necessidades de cada aluno, construindo assim uma memória afetiva.

Um dos entrevistados de Mascret relata que após seu professor o encontrar trabalhando em um café em Paris começou a tratá-lo com maior gentileza, o que o motivou a ser mais aplicado em ciências naturais, a matéria que o professor lecionava, esse tratamento contribuiu para a excelência do seu desempenho também em outras disciplinas. Segundo Juliatto (2013, p.58/59), “O Sucesso intelectual é, em grande parte, uma consequência do calor afetivo que o estudante experimenta. A empatia, com toda certeza, desempenha uma função decisiva no magistério”. O que me leva a compreender que esses professores que nos marcam positivamente possuem uma habilidade afetiva que além de contribuir com o aprendizado de seus alunos, proporcionam vínculos emocionais que marcam suas vidas.

Aqui está um ponto que me gera inquietações produtivas (como chamo os meus momentos de reflexão). Considerando que os bons professores possuem uma aptidão nata que os fazem semear e cultivar bons frutos nas relações com seus alunos, seria possível adquirir e desenvolver essa habilidade? Buscando uma resposta, identifico que o psicólogo americano Carl Rogers entendia a empatia não apenas como a resposta reflexa ao comportamento do outro, mas como a habilidade, aprendida/desenvolvida, que envolve vínculos cognitivo-afetivos entre as pessoas, permitindo sensibilizar-se com a vida privada de outros (ROGERS, 2001).

Indo mais além, descubro que no século IV a.C. Sócrates ao conduzir seus interlocutores à reflexão lógica e crítica sobre determinado tema, a fim de que descobrissem por si mesmo o que previamente acreditavam conhecer, já exigia um vínculo positivo entre aquele que ensina e aquele que aprende. E mais recentemente um estudo da UNESCO, do período entre 1995 e 2000, sobre a qualidade da Educação na América Latina, analisou fatores que favorecem o bom desempenho dos estudantes em 14 países, incluindo o Brasil. Os resultados mostraram alguns elementos que influenciam de forma positiva o aprendizado do aluno, sendo um aspecto fundamental o ambiente emocional apropriado, gerado pelo bom relacionamento entre professor e aluno (CASASSUS, 2007).

Voltando ao livro de Mascret (2012, p.94) onde o cantor e compositor francês Jean-Jacques Goldman conclui que “Professor é mais do que a melhor profissão do mundo é a mais bela tarefa do mundo: transmitir”. Ou seja, a habilidade dos bons professores empatizarem com seus alunos está relacionada com a principal tarefa exercida por eles em sala de aula que é a de transmitir usando a comunicação.

O senso comum identifica o ato de se comunicar como sendo uma ação simples, no entanto, uma parcela expressiva dos desequilíbrios nas relações humanas tem como fator inicial a forma como são apresentadas as ideias, mais do que propriamente as diferenças de opiniões. Diante essa realidade, Marshall Rosenberg, que teve em sua formação a contribuição de Carls Rogers, desenvolveu o processo de Comunicação Não Violenta (CNV) com o intuito de estimular a compaixão e a empatia, também por isso chamada de Comunicação Empática.

Essas pesquisas me levam a concluir que o uso da comunicação empática no trajeto pedagógico pode ser uma habilidade desenvolvida por professores que a partir dela passam a dispor de instrumento teórico-metodológico facilitador do processo de aprendizagem, o que demanda aos professores que desejam esse crescimento assumir o papel de aprendiz.

Retomando as lembranças de meus bons professores e sabendo que você caro leitor pode vir a ter também essas boas reminiscências estudantis, finalizo convidando a uma reflexão. Imagina como será a sociedade humana nas próximas décadas com as pessoas sendo educadas por professores em todos os cantos do mundo que investiram no desenvolvimento da habilidade de se comunicar com empatia.

Referências:

  • CASASSUS, Juan. A Escola e a Desigualdade. 2. Ed. Ed: UNESCO, 2007.
  • JULIATTO, Clemente Ivo. De professor para professor, falando de educação. Curitiba: Champagnat PUC PR, 2013
  • MASCRET, Nicolas. N’oublions pas les bons profs. Paris: A. Carrière, 2012.
  • ROGERS, Carl Ransom. Tornar-se Pessoa. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  • ROSENBERG, Marshall B. Comunicação não violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais, São Paulo: Ágora, 2006.

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