A partir de 2017, quando relatórios de instituições portuguesas apontavam cerca de 4 mil pessoas sem teto em todo o país, a crise de moradia em Portugal deixou de ser um alerta abstrato para se tornar um cenário visível nas ruas de Lisboa. Em 2021, o número de moradores em situação de rua já se aproximava de 11 mil, com cerca de 10% formados por estrangeiros, muitos deles brasileiros em Portugal que chegaram em busca de estabilidade e hoje disputam marmitas em filas noturnas.
Organizações de ajuda humanitária percorrem praças e calçadas distribuindo refeições quentes para moradores em situação de rua.
A equipe da Noor Fátima, formada por voluntários que recolhem doações e preparam marmitas, encontra um público cada vez mais numeroso. As bandejas são disputadas e, na fila, o português se mistura ao sotaque brasileiro.
Muitos brasileiros em Portugal aceitam a ajuda, mas recusam entrevistas e exposição em vídeo, com medo da reação de familiares no Brasil e de empregadores.
É cada vez mais comum ouvir relatos de pessoas com trabalho formal ou informal, mas sem condições de pagar um quarto, empurradas para a rua ou para barracas improvisadas.
Em vários casos, o roteiro se repete: promessa de emprego, meses de subempregos no setor de limpeza, construção ou serviços, somados ao custo alto de transporte e alimentação.
Quando o aluguel em Lisboa passa a consumir quase tudo o que entra na conta, qualquer atraso em pagamento ou perda de jornada vira gatilho para despejo e para a entrada na estatística de moradores em situação de rua.
Especialistas ouvidos em relatórios públicos atribuíram o agravamento da crise de moradia em Portugal a três fatores principais: aumento do investimento estrangeiro em imóveis residenciais, boom do turismo a partir de 2015 e escassez de construção de novas habitações a preços acessíveis.
O resultado direto é um mercado que remunera melhor o aluguel de curto prazo para turistas do que contratos longos para famílias de baixa renda, pressionando moradores em situação de rua e empurrando trabalhadores de baixa qualificação para periferias distantes ou para soluções improvisadas.
O impacto da crise de moradia em Portugal também é visível nas estatísticas do programa de retorno voluntário, financiado em parte pelo governo português e voltado a imigrantes que não conseguem mais se sustentar no país.
O mecanismo oferece apoio logístico e financeiro mínimo para que estrangeiros retornem ao país de origem, independentemente do status migratório.
Na prática, o programa de retorno voluntário virou a última porta de saída para famílias que se veem espremidas entre contratos caros e a perspectiva concreta de se tornarem moradores em situação de rua.
Em Carcavelos, uma das áreas mais valorizadas da Grande Lisboa, um acampamento cresceu em meio à vegetação da chamada Quinta dos Ingleses.
Ali, barracas se organizam como se fossem quitinetes, com divisões que lembram quarto, sala, cozinha e banheiro.
O terreno arborizado, porém, não é apenas um ponto alternativo de moradia: concentra outras barracas ocupadas por brasileiros em Portugal em situação semelhante, que trabalham em faxinas, serviços gerais ou construção civil durante o dia e voltam à noite para um cenário que mistura improviso, vulnerabilidade e tentativa de recomeço.















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