O ambicioso projeto do governo de Donald Trump para atrair fortunas estrangeiras por meio do “Gold Card” enfrenta um cenário de desolação estatística que contrasta severamente com o otimismo inicial da Casa Branca. Implementado em setembro de 2025 com o objetivo de oferecer residência acelerada nos Estados Unidos em troca de um aporte de US$ 1 milhão, o programa alcançou resultados pífios após pouco mais de meio semestre em vigor.
O abismo entre a expectativa de arrecadação e a realidade prática foi exposto recentemente em uma sabatina no Congresso americano, revelando que a iniciativa está muito aquém do necessário para impactar a economia nacional.
A derrocada dos números começou a vir a público quando o secretário do Comércio, Howard Lutnick, admitiu que apenas 338 pessoas demonstraram interesse formal no programa desde sua implementação. A filtragem dos dados oficiais mostra um cenário ainda mais restrito, pois desse grupo inicial somente 165 interessados chegaram a desembolsar a taxa de processamento de US$ 15 mil. O afunilamento prosseguiu com apenas 59 candidatos avançando para as etapas de análise detalhada de documentos. Segundo apurado pelo Jornal Brazilian Press, o resultado final desse processo é simbólico para a atual gestão: até o encerramento do mês de abril, apenas uma única pessoa no mundo inteiro havia efetivamente pago o montante de US$ 1 milhão e recebido a aprovação final para o cobiçado visto dourado.
Essa realidade atual desmente as projeções astronômicas feitas por Lutnick no início do ano passado, quando o secretário chegou a alardear um potencial de venda de 200 mil vistos, o que geraria uma receita de US$ 1 trilhão. Tal montante era apresentado como uma solução estratégica para ajudar a equilibrar o Orçamento dos EUA e enfrentar a dívida pública de US$ 31,3 trilhões. Mesmo diante de um cenário onde apenas um investidor foi convertido, o secretário tentou manter uma postura de satisfação durante o depoimento legislativo, alegando que centenas de nomes ainda aguardam na fila de análise. No entanto, o histórico de declarações do governo é marcado por contradições, como o anúncio feito em junho passado de que já existiriam 70 mil interessados, número que nunca se materializou nos registros de pagamento.
O Gold Card foi desenhado para substituir o antigo programa EB-5, elevando as exigências financeiras e personalizando a experiência de imigração com uma forte marca política. O site oficial, que utiliza o slogan “Desbloqueie a vida na América”, exibe ostensivamente a imagem de um cartão dourado com a face de Donald Trump, acompanhado da águia americana e da Estátua da Liberdade. Além da modalidade individual, o programa tenta atrair empresas que aceitem pagar US$ 2 milhões para garantir a residência de funcionários estrangeiros, acrescidos de uma taxa de manutenção anual de 1%. Há ainda planos para o lançamento de um “Cartão Platina Trump”, custando US$ 5 milhões, que ofereceria benefícios fiscais agressivos para rendas obtidas fora do território americano.
Apesar do esforço em vender os Estados Unidos como um destino exclusivo para a elite global, especialistas apontam que o plano falhou ao ignorar a demografia da riqueza mundial. Relatórios de consultorias especializadas e análises de mercado já indicavam que não existem ricos suficientes no planeta com o perfil desejado para sustentar as metas de Trump. Estima-se que existam cerca de 713 mil indivíduos com patrimônio ultra-elevado no mundo, mas quase metade desse contingente já reside na América do Norte. Assim, o público-alvo remanescente é disputado por diversos outros países com programas similares e menos vinculados a figuras políticas específicas, deixando o “visto de ouro” americano em uma posição de isolamento comercial.















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