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A necessidade do “nada” na vida das crianças

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“Disponibilizar tempo para brincar. Mas não meia hora. Meia hora é um tempo muito delimitado. O pensar, o criar, o fazer, o acontecer… não é em meia hora que vai acontecer esse brincar”.

A frase acima é de uma professora de uma das seis escolas brasileiras que se dispôs a olhar o brincar dentro de seu território e com suas crianças, e em diálogo constante com o programa Território do Brincar.

Afinal, como disseram os participantes desse diálogo, é necessário tempo largo para que os pequenos brinquem e explorem livremente o que há ao seu redor. No entanto, para especialistas, a nossa sociedade não tem investido em tempo, espaço e tampouco circunstância para o brincar dessas crianças. Em palestra no evento trianual do International Play Association (IPA World), cuja última edição aconteceu em setembro em Calgary, no Canadá, o psicólogo e pesquisador Peter Gray alertou que a sociedade atual sofre do que ele chama de Transtorno de Déficit do Brincar.

Baseando-se em análises históricas e sociais dos Estados Unidos e de outros países, o pesquisador chegou à conclusão que, nos últimos 60 anos, houve um forte declínio do brincar. Paralelamente a isso, ocorreu o

aumento de depressão, transtorno de ansiedade e suicídio entre crianças e jovens

Fato é que o ócio e o “nada” são fundamentais para que as crianças tenham autonomia na realização de seus quereres. O tempo cronometrado, fragmentado, enfraquece a possibilidade de exploração da potência e da imaginação. E sendo assim, corroído pelo acúmulo de horários rígidos, atividades e obrigações, o ócio e tudo aquilo que se desdobra a partir dele vêm perdendo seu espaço.

Nesse sentido, somos estimulados 24 horas por dia, sete dias por semana, dispostos a executar múltiplas tarefas concomitantemente e sempre mergulhados em um excesso de estímulos, informações e impulsos.

Por tudo isso é urgente restaurar às crianças o direito de brincar. Como apontam os psicólogos, é inconcebível que familiares e escolas estejam olhando, hoje, para esse momento da vida como uma mera fase de construção de currículo, eliminando todo o potencial lúdico e expressivo da infância.

O brincar permite à criança elaborar o mundo, dá sentido a suas experiências internas e externas, amplia sua compreensão do entorno. Segundo Gray, com a perda do brincar livre, perde-se a essência da infância.


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