Os bombeiros que já viram de tudo dizem que nunca tinham visto algo assim. Sabiam que estava chegando, estavam preparados para o pior. Mas isso não era o pior, era outra coisa. O incêndio que devastou Paradise, na Califórnia, continua produzindo números aterrorizantes dez dias depois.
Não há razão concreta para explicar pelos mortos, os desaparecidos e 12.000 edificações destruídas. Há uma casualidade após a outra, um capricho terrível. Mas essas casualidades se deram sobre uma realidade que se tornou perturbadoramente presente: a Califórnia é uma fornalha pronta para queimar a qualquer momento.
Na hora em que o incêndio de Paradise começou, soprava um forte vento quente do deserto com rajadas de 80 quilômetros por hora. O fenômeno, que ocorre em todos os outonos e é conhecido como vento de Santa Ana, está secando a madeira que já estava seca por si mesma e alimentando qualquer princípio de fogo. O incêndio de Paradise queimou 21.000 hectares nas primeiras 24 horas. “Um incêndio de 800 hectares em 24 horas já seria considerado grande. Estamos vendo incêndios que explodem”, diz Kaufmann.
O acúmulo de combustível na montanha não é acidental. Deve-se aos cinco anos de seca. De acordo com um estudo da Universidade da Califórnia em Berkeley divulgado em de janeiro, a seca deixou 100 milhões de árvores mortas no estado. Além disso, julho foi o mais quente jamais registrado na Califórnia. Os seis verões (de junho a agosto) mais quentes da história foram, nesta ordem: 2017, 2015, 2014, 2006, 2016 e 2013. Para os especialistas não há dúvidas de que estamos vendo os efeitos do aumento das temperaturas devido à mudança climática. No Atlântico, isso se traduz em furacões explosivos. No clima mediterrâneo da Califórnia, em incêndios explosivos.
E além do clima, há o horror. “Paradise é uma comunidade de aposentados, uma cidade antiga, com construções de madeira no meio da floresta e com estradas estreitas. Não pode ser pior”, diz ao EL PAÍS Scott McLean, porta-voz estadual do Cal Fire que foi chefe dos bombeiros nesse condado e vive em Chico, a cidade grudada em Paradise.
O que aconteceu em Paradise foi uma anormalidade. É a nova expressão usada pelo governador da Califórnia, Jerry Brown. “E nessa nova anormalidade vamos continuar nos próximos 10 ou 20 anos. Infelizmente, a ciência mais confiável nos diz que a seca, o calor e os ventos se intensificarão.” A fornalha da Califórnia está condenada a ficar maior. À espera da próxima faísca.















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