Após quatro semanas de julgamento e toda a indústria de tecnologia em suspense, Ellen Pao perdeu a batalha nos tribunais, mas não nas ruas, onde se comemora o fato de que teve a coragem de enfrentar o fundo de investimentos mais poderoso do Vale do Silício. Kleiner Perkins Caufiels & Byers é, com o Sequoia, o segundo fundo mais importante da Califórnia, os pioneiros da Sandhill Road, o Wall Street da Costa do Pacífico.
Pao processou sua antiga empresa nos tribunais por considerar que foi discriminada por ser mulher. Apesar de ser sócia da firma, acreditava que seu salário e a falta de promoções não correspondiam com seus resultados. Menos ainda quando os comparava com os de seus colegas. O fundo Kleiner Perkins a despediu em 2012, alegando que ela tinha uma personalidade difícil, e que não teria cumprido as metas de trabalho.
No Vale do Silício, é possível notar um orgulho especial na forma de se fazer negócio. Tudo é questão de contatos, tudo é direto. As pessoas vão ao escritório de patinete, vestidas de camiseta e chinelos, o sanduíche do almoço é orgânico e superecológico. O cachorro faz parte do escritório e, os seminários sobre racismo, também. E toda a sociedade do Vale do Silício está encantada de ter feito contatos. Especialmente se são homens.
Casos como o de Pao, apesar da derrota nos tribunais, revelam algumas práticas que questionam o modelo, como o da empresa Kleiner Perkins, que nem sequer tem departamento de recursos humanos. Segundo Paul Gompers, professor da Universidade Harvard que foi testemunha a favor de Pao, 79% das empresas de investimentos não possuem mulheres no quadro de funcionários. Já as que fazem parte ganham 15% menos, de acordo com um estudo do mesmo professor.
As denúncias são cíclicas. Em meados do ano passado, Evan Spiegel, o mais recente menino de ouro, o inventor do Snapchat, se tornou misógino de personalidade retrógrada depois que foram revelados e-mails quando estudava em Stanford, nos quais se orgulhava de embebedar mulheres nas festas da faculdade.
O caso mais flagrante, com insultos como “puta” ou “gold digger” aconteceu na Tinder. O cofundador da empresa, Justin Mateen, escrevia essas pérolas a Whitney Wolfe, porque ela queria aparecer nos créditos do aplicativo, já que também era fundadora. Desde o primeiro momento foi a responsável do marketing. Ela afirma que, para conseguir os créditos, teve que aguentar um pedido para ter relações com ele. Mateen e seu sócio Sean Rad defenderam sua postura com um argumento ainda pior: acreditam que ter uma mulher entre os pioneiros espanta os investidores.
No Google, com maior exposição na mídia, menos de 30% dos empregados são mulheres. No Twitter e Yahoo! a cifra é um pouco inferior. Segundo os cálculos de Tracy Chou, analista de dados, na Etsy, Pinterest, Mozilla, Airbnb e outras startups líderes no mercado, apenas 12,42% dos cargos técnicos são para mulheres. O Google investiu 50 milhões de dólares (cerca de 156 milhões de reais) para ajudar a mudar a situação. No último Congresso Mundial de Telefonia Celular de Barcelona, Brian Krzanich, líder da Intel, anunciou uma medida na mesma linha que incluía latinos e trabalhadores negros, entre outras minorias.















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