Roger Costa
A cineasta francesa Catherine Corsini, também atriz e escritora, nascida em Dreux em 1956, já realizou 16 filmes desde que estreou na indústria em 1982. Alguns meses atrás ela esteve em New York para divulgar seu novo projeto, “Three Worlds”, drama excepcional selecionado para a Mostra Competitiva em Cannes, sobre um acidente de carro que interliga a vida de três pessoas, em cartaz nos cinemas a partir de 21 de junho pela distribuidora Film Movement. Confira o resultado de nossa conversa durante uma tarde fria de Primavera no Empire Hotel.

BP: Como foi a concepção e ideia original para a obra?
-Sempre tive interesse em fazer um filme onde o protagonista fosse masculino, já que fiz vários filmes com mulheres. Também havia o fato, que me tocou muito, de que fui atropelada quando criança, e o causador do acidente, havia fugido. Senti o desejo de narrar as incivilizações modernas, pessoas com medo de seus atos, mesmo quando trata-se de um acidente, que não é crime, apenas considerado crime, quando a pessoa foge das consequências.
BP: Sobre a construção dos personagens, e suas emoções, existe algo ou alguém que se identifica com sua personalidade?
-A personagem Juliette, interpretada por Clotilde Hesmem é alguém que se parece muito comigo. Ela é uma intelectual, certa de seu status e lugar no mundo, mas não está satisfeita, ela quer ir além do que ela conhece, ela quer ajudar o mundo, ajudar as pessoas em sua volta, mas ao mesmo tempo, ela teme as consequências dessas ações.
BP: Para mim, os três personagens no filme estão lidando com a falta de tolerância, compaixão e amor ao próximo, tão visível na sociedade moderna. Eles estão tentando ressuscitar esses sentimentos, e distribuí-los ao mundo. Era essa a sua intenção?
-Você está certo. Hoje em dia temos a tendência de estigmatizar as pessoas, julgando-as, apontando o dedo para suas falhas e erros, e dificilmente alguém quer assumir sua culpa, sempre tentando passar a bola adiante. Podemos perceber as diferenças sociais, e os conflitos entre os ricos, os intelectuais, os imigrantes indocumentados, e até entre pessoas da metrópole e pessoas do campo. Aqui, eu estou tentando mostrar o reverso disso, mostrar que precisamos uns dos outros.

BP: Qual sua expectativa em relação a interpretação da audiência acerca da mensagem humanitária do filme?
-Espero que todos possam enxergar que o filme mostra a transformação de um homem que não tem consciência de seus erros fatais, mas rende-se a esperança para reverter esse aspecto. A consciência é meu alvo.
BP: No filme, a esposa imigrante da Moldova está na França em busca de um futuro melhor. De repente, o acidente transforma a vida de todos. Como francesa, como você encara a questão da imigração e o problema socio-econômico?
-Na França temos muitos imigrantes clandestinos, obviamente é um país que representa prosperidade, facilidade de sobreviver mesmo passando por uma crise econômica. Para muitos a França é um paraíso, mas quando as pessoas chegam lá, descobrem que é muito mais difícil do que elas imaginavam. A maioria das pessoas são fechadas dentro de seus mundos, seus ideais conservadores. A maioria dos imigrantes, trabalham em condições precárias, e não são respeitados. No caso do meu personagem, a imigrante Vera, ela tem trabalhado duro por 5 anos, e o acidente é o ponto de partida para exercer sua indignação com o país, principalmente quando é pressionada pelo hospital, então ela tenta reinvindicar seus direitos como ser humano.
BP: Como você descreve o relacionamento que se desenvolve entre esses três personagens, a testemunha, o causador do acidente, a esposa imigrante?
-Esses três personagens, representam três aspectos diferentes na sociedade. O intelectual, porque Juliette já chegou onde ela queria, a persistência caracterizada por Al, que está tentando alcançar o sucesso, e a classe menos favorecida, representada pela imigrante ilegal. Os três estão em busca de um futuro melhor, dentro do padrão de cada um. E o acidente, faz com que esses três níveis se aproximem.
BP: Fiquei imensamente emocionado com os assuntos abordados no filme. Em suas palavras, como você o descreve?
-Fiz um filme sem julgamento moral, sobre conscientização, e como a consciência nos persegue, nos faz enxergar além do que somos capazes. Cada personagem encara as consequências que a consciência os acusa, ou os leva a fazer. O ser humano só é capaz de perdoar, quando consciente, caso contrário, estaria cego. Cada um deles, caminha em direções diferentes, cuidando de seus destinos, o acidente os coloca frente a frente com seus medos. É incrível como um acidente é capaz de criar além de tantas coisas, amor, tensão, e conexão, e trazer pessoas diferentes para viver e experienciar a vida alheia.















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