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Léa Campos: Difícil, Mas não Impossível

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Sabemos que desde os primórdios da vida, que a mulher sempre esteve colocada em segundo plano. O machismo nos limitava e sempre éramos tratadas como empregadas domésticas pelos homens. Tínhamos que fazer todos os serviços da casa, criar os filhos e ser amável com o esposo. Não tínhamos nossa escolha respeitada e quando tentávamos alguma coisa fora do ritual doméstico, o clamor era geral: “Lugar de mulher é no tanque!”.

Apesar dessa imposição algumas de nós conseguimos nos impor e abrimos outras portas, o que evidentemente nos enche de orgulho, pois é como receber uma medalha de ouro por nosso desempenho. Hoje temos mulheres em setores que nunca imaginamos e embora a remuneração seja inferior à do homem achamos que valeu a pena tudo o que fizemos. O exemplo disso está nas mãos de uma grande mulher que conseguiu se impor atrás do manche de um avião, apesar das negativas e dos deboches recebidos. Mesmo não tendo na família ninguém pilotando um avião, Flania Ximenes, desafiou o comum e se tornou aviadora. O desejo maior dela, segundo suas próprias palavras, era:

“O que me levou a me tornar uma comandante foi o desejo de guiar uma máquina pelos céus. Gostaria de viver a dicotomia entre velocidade e altura, queria chegar longe e voar alto”. Voando desde 2008, ela filosofa sobre o que é para ela voar: “Ao voar tenho uma incrível sensação de liberdade, como se as demais coisas se tornassem insípidas e desinteressantes”. São muitas as emoções vividas por ela, mas ela menciona que a maior de todas foi: “A maior emoção que senti na função foi ter a honra de ser a primeira mulher comandante a transportar as primeiras 120 mil doses da vacina contra o coronavírus. Foram doses de esperança para uma nação aflita por uma solução. No meio de uma pandemia, foi motivo de orgulho ser portadora de boas notícias. Além de ter sido um marco na minha carreira profissional, foi um marco na história: a chegada das vacinas”.

Como não poderia ser diferente, ela sofreu os mesmos rechaços que eu quando me tornei árbitra de futebol, o comentário dela serve para provar mais uma vez, que se queremos podemos: “Muitos colegas me receberam com hostilidade. Ainda existe preconceito e muitos tentam nos diminuir, criticar e desanimar. Naturalmente, os cachorros latem assim que a carruagem passa. Mas não devemos parar ao som de cada latido. Pelo contrário, devemos continuar a caminhada, avançar e perseverar” Ouvir NÃO é comum quando buscamos sair do comum para tentarmos outras vias, mas podemos transformar cada não em estímulo e em sim, de minha parte nunca aceitei um NÃO como definitivo, sou teimosa por natureza e lutar pelo que sempre desejei foi meu objetivo principal na vida. É importante o apoio dos pais, pois eles sempre serão nosso exemplo e nosso guia, com Flania não foi diferente: “Minha mãe sempre se mostrou favorável e incentivadora mesmo quando apenas a idealização de um sonho existia, porque ela já conseguia contemplar a conquista de ser aviadora independente do cenário. Meu pai, irmãos e amigos ficaram surpresos com a ousadia da escolha”. Quando entrei em um campo de futebol, pela primeira vez para apitar um jogo fui vaiada pelas mulheres, enquanto recebia o apoio dos homens, que saíram do casulo de machistas para aceitar que o mundo estava mudando, que teriam que respeitar as mudanças e que as mulheres deveriam ser apoiadas para confirmar se eram capazes ou não.

Com Flania não foi diferente, não chegou a ser vaiada pelas mulheres, mas a olharam com desdém, dúvida e porque não dizer, com inveja: “A reação das mulheres ao verem uma mulher no comando de uma aeronave é um completo espanto. Embora vivamos em 2021, foram séculos e séculos o mundo falando: mulheres vocês não podem, vocês não têm e vocês não são. Vocês não podem chegar aonde querem! Vocês não têm habilidades e vocês não são capazes. Então muitas se surpreendem, porque decidimos silenciar O NÃO DO MUNDO e seguir em frente”. Sempre digo em minhas entrevistas e escritos: Não joguem a toalha antes de subirem no ringue. A vitória não acompanha medrosos, quanto mais difícil for a caminhada mais bonito será o triunfo. Tudo na vida requer sacrifícios e quando se trata de desafio, por mais que nos julguem incapazes devemos mostrar com atos, que tendo a vitória como meta tudo fica mais fácil. Hoje temos muitas mulheres apitando, auxiliando, jogando, treinando e trabalhando pelo futebol feminino e masculino, me sinto orgulhosa por meu aporte e que outras sigam o caminho que abri para não matar o sonho de outras gerações. Flania manda sua mensagem para as mulheres que sonham, mas não lutam por medo: “Minha mensagem às mulheres que desejam comandar um avião é: Não sejam guiadas pela emoção, não tenham visão romântica de tudo. Sejam racionais e realistas. Quando você transita em um meio dominado por homens a oposição é certa. A crítica muitas vezes não é verbalizada, mas a desaprovação e julgamento estarão presentes nos olhares que gritam: seu lugar não é aqui! Quem você pensa que é? Silenciem as palavras e ignorem os gestos. Sigam acreditando que o propósito é muito maior”.

Meu sonho maior não pode ser realizado, apitar um mundial era uma meta, mas um acidente cortou minhas asas e não pude seguir em frente. Flania como todas nós, tem sonhos também e a julgar por sua capacidade e tranquilidade que transmite desde a cabine de uma aeronave, em breve a veremos pilotando em outros céus: “Minha meta é ser comandante em voos internacionais e ainda atuar como instrutora e examinadora. Não pensei em ser astronauta”. Flania é casada e não tem filhos. Se a mulher pode ter um filho, então não existe nada que ela não possa fazer. A vida nos mostra o que podemos quando queremos.


Social Press . 23/7/2021

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